domingo, 19 de abril de 2009

Cachinhos de Ouro - Juracy Ribeiro - Editora Brasiliense

Sr. Editor,

Vi o regulamento de um Concurso de Contos Eróticos promovido por essa editora e, respeitosamente, dirijo-me ao senhor para fazer algumas considerações e sugerir uma mudança no tema, se ainda houver tempo.
Como dizia Jack, o estripador: vamos por partes.
Não quero julgar as pessoas participantes de um concurso dessa natureza, mas eu jamais participaria, mesmo que fosse por uma causa nobre. Aprecio contos e poemas românticos, leves, amorosos. Contos são libélulas esvoaçando nas páginas dos livros. Veja Cecília Meireles:

“É a menina manhosa que não gosta da rosa
que não quer a borboleta porque é amarela e preta
que não quer maçã nem pêra porque tem gosto de cera....”

Ou Clarice Lispector, ou Emily Dickinson. Todos temos uma missão a cumprir, e a do escritor é deixar algo assim para a humanidade. Escritos que possam elevar o espírito, não derrotá-lo. Não concordo com o erótico por causa disso. A pessoa vai lê-lo e poderá, se for fraca da idéia, excitar-se, e isso não é certo.
Veja também o poema de Milarepa. Uma jóia rara:

Isto mostra a ilusão de todas as coisas
Isto mostra a passagem de todas as coisas
Pense, e então praticará a lei e a consciência.

Ou de Rudyard Kipling:

Shere Khan, o tigre
adoraria pegar Mowgli
mas Mowgli está a salvo
com Baguera .

Que maravilha! O conhecimento que tenho no ramo literário não me permite ainda escrever textos que enobreçam assim. Sei tudo sobre literatura infantil, modestamente posso dizê-lo: Alice no país das maravilhas, Cachinhos de ouro, As dez maçãzinhas, Aladim e a lâmpada maravilhosa, Chapeuzinho Amarelo. Conheço também alguns livros bem escritos, como A teus pés, Mar paraguayo, Vidros e vidraças — um livro à prova de pedradas, de uma desconhecida. Aliás, a pessoa menos importante de Goiás.
Não, senhor editor, esse concurso não pode seguir adiante. Tantas pérolas verdadeiras.

“Não desperte o meu amor até que eu queira.”
“Eis que és formosa, amiga minha”.

Outro dia num consultório médico (uma raridade: o médico se atrasou), vi um guia de vídeo. E fui folheando, folheando, enquanto aguardava. Numa página, vi um certo filme em que havia duas mulheres com corpos esculturais. Estavam ajoelhadas (tem que rezar?), e uma pousava a mão sobre o ventre da outra, perto do púbis. A loira — uau! era loira — tocava levemente o seio da outra, sua gentil parceira. Eram muito bonitas e tinham seios grandes com mamilos rosados.

“Não olheis para o eu ser morena.”

Seios claros, claros. A loira chamava-se Dina (vi na sinopse) e tinha os seios em forma de gota. Que lindos! Que amor!

“Os teus dois peitos são como filhos gêmeos da gazela, que se apascentam entre os lírios.”

Uma suavidade imensa invadia as duas, e um tesão muito grande tomou conta delas. Fiquei perplexa. Qualquer pessoa que visse aquela foto tão bem-feita gostaria de ter uns seios assim. Algumas na boca, sem dúvida. Que desespero. Havia um espelho atrás delas que mostrava suas costas. Um primor! Espáduas suaves — linhas femininas —, formas leves, bumbuns arrebitados. Nuas, nuas. Como pode? Na mesma página, vi essas mulheres noutro filme. Estavam dentro de um carro. Sentadas, seminuas. Ambas com cabelos longos quase cobrindo os seios grandes, e tinha os lábios entreabertos. A loira devia ter uns quarenta anos, e tinha um rosto agradável de se olhar.

Não sei se a deusa sobe à superfície
ou se apenas me castiga com seus uivos
da amurada deste barco
quero tanto os seios da sereia *

Ela usava uma luva branca na mão direita (luva de pelica! Só podia ser) e oferecia o seio à outra com dois dedos, como se dá de mamar pra criança. Quanta gentileza! Que bondade! Seios cheios. Leite e mel. Tetas tentadoras. Língua próxima. Saliva. Gemido. Uma deusa. Uma deusa. Um de filme de amor. Virei a página imediatamente. Eu não teria coragem de fazer um filme assim. Ou um conto.
Senhor editor, reflita enquanto é tempo. Eu lhe peço por favor. Lembre-se: “Já Bocage não sou. Rasga meus versos. Crê na Eternidade”.
Que proveito eu teria participando de um concurso assim?

Assina a leitora,
Margarida Souza


*Ana Cristina Cesar.

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