quinta-feira, 23 de abril de 2009

à prova dágua

ai, o tanque transborda
é noite, transborda o bebê
o tanque geme e a mãe chora
o bebê geme numa mãe que transborda
o tanque chora e a mãe geme
se o tanque transborda
águas turvas descem
se esparramam, ganham o chão
passam pelos ombros, dedos
cantando, molhadas
no tejo que o tanque transborda
na enxurrada de fraldas brancas
sonhos lentos, belos
a mãe chora na fonte
que o tanque transborda
espuma sobe, molha o rosto
olhos transbordam
transbordam braços e beijos
a chama doce e preta do fogão
é labareda que chama, acorda
a mamadeira derretida
ai, o coração derretido
transbordado em gotas
mãos queimadas, queimadas
estão fritas as pomadas
outro bebê a bordo transborda
o leite se derrama no fogo
meu leite é catarata
na boca faminta é chuvarada
a boca desgasta, transborda
mais um bebê gritando, meu deus
e o tanque é regato
quando vira ribeirão
as mães transbordamos

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