segunda-feira, 30 de março de 2009

abandonado
o melhor amigo do cão
abana o rabo

sincera

se você fosse aurora
ô veja só que bom
que era
quero casa no campo
do tamanho legal
pau-a-pique
saquê

outros tempos

para elisa, alice e rubem

nunca conseguirei usar
na corrente dependurada no colo
iniciais de nomes dos filhos

elos dourados
clamam pelas crianças ausentes
letrinhas gravadas

no peito ostentadas ou substituídas
quem sabe por dentes alvos
ou argolas imensas
presas às orelhas como fruto
de várias crenças:
são de leite para meu deleite

alvos, a pedidos? ARE a terra descansada
preparando-a para nova safra

as iniciais dos filhos
sugerem, impiedosas:
-- é tempo de nova ERA
eis que surge do nada
o gênio da lâmpada
me levanta do calabouço
haja luz! haja vida!

traz alegria
da mãe-poesia
despertar, colo

sem badalos

tenho
um bem
que não veio
ou veio

mas, feio
repeli
não ouvi
creio

o bem
que tive
como num filme:

veio
vi
fui-me

espantalha

há terra
revolvida
dentro de mim
esperando semente

ar
removido
nos pulmões
vindo de ciprestes vizinhos

água
até debaixo dágua
nas veias
não resolvidas

há fogo
de palha
dentro de mim

travessura poética

para você, eugênio avelino

enquanto en canta
te desenho em minha frente
você canta, canário mavioso
mas não canta para mim

vejo seus olhos mundos de sonhos
eles não veem a mim
sorriso branco mar ave ilha
ninguém sorri para mim
suor em todo seu rosto sal
quero dar uma lambida
à moda de viola
te violarei?

sinto meus dedos encaracolados
mãos percorrendo tua voz
embrenhadas nos fachos de luz de teus cabelos
me invade a vida voraz fera
com tão poucos espaços cobertos de sol

canta néctar
não para meu bico
sou beija-flor quase morrendo
minha vingança meligna
é mais doce que tua voz canária

canta distraído
beijo tua linda boca num estalo
saio ligeirinho, voando...

bem-te-vi

assim te vi cantando
quem te viu dançando
quem te vê
peso-pena
riso-solto

beto, balança, meu amor

queria vê-lo mais
entre névoa de som, fumaça
neblina turvando minha mente
corpo solto
riso pluma

beto, balança...

dança, dança, dança mais
fecha os olhos, solta os cabelos
dança até o sol te saudar
para alegria de meus olhos febris

beto...

sina

dou de beber vinho
ele mesmo trouxe
branco
uva na boca, língua casta
gavinhas
cordas do violão

quebro garrafa
mensagem aberta no mar
quem lê? quem assina?
minha estrela-guia
afaste o braço do violão
busque braços da estrela-do-mar
descansa tuas mãos assim
assim amor assim
descansa sim

pó de guaranah

valei-me, virge maria
seus olhos-punhais ferem
à traição, deixam rasgo
nas costas

valei-me, bom jesus dos atores
sua voz doce
é o doce mais doce
elixir do amor
tem açúcar, tem afeto
não haveria de ter?

valei-me, padim ciço
no palco
vejo as mãos de guaranah
a voz voo viço vício
pernas  [belo par de pernas!] dorso
charme, chama, é fogo
saga, ético, estético
cabelos, postura, boca linda
humildade ade ade
a bunda rija
valei-me todos os santos!

e o tom

estou amando fantasma
fecho olhos para sentir sua presença
peço ao meu coração:
-- por favor, pode pulsar mais baixo?

não ouço ranger de portas enferrujadas
nem gargalhadas
ouço tão-somente
voz serena
preenchendo casarão antigo
de raio de sol, clave
-- manso felino, anjo, ave
pra quem, amorosamente, arrasto
correntes de ouro

colecionadora de borboletas

dias passados
passam à minha frente
-- filme fugaz --
desafiando a memória
alfinetes torturando

arde minhas órbitas a visão
das asas multicoloridas
expostas sem compaixão
eu, vidrada
naquela maldita vidraça

dias passados
desmoronam meus sentidos
não sinto mais o tato
à procura de teus sentimentos
apalpando tuas carnes
o chão me fugiu
me achei perdida

paladar? só amaro
eu que sabia meu doce favorito
na ponta da língua

passada
passo dias caçando
o passado
não vale a pena a dor
ui, que dor
ui, que dor

melhor amputar de vez este órgão
dito coração
coração maldito

eu, tendo asa

é feriado
todo mundo viaja
viajo em casa

nunca mais

sopro no ouvido dele
todas as noites
eu te amo
não é verdade, travesseiro?
durmo
como se isso fosse possível

engulho, ressaca

se há sede
não importa como se beba
importa que seja água

à lápis, lágrimas, lástimas
lamento dizê-lo
não há água que eu beba
não há água que eu, bêbada...
sim, ato de amor
doação de sangue
julgo suave
palavra


deus
se soubesse seu endereço
te mandaria carta bem amorosa
inefável
teria certeza de que ela chegaria
ao trono de sua graça
não pediria pra ver sua face
face a face
pediria o dom
sendo lama
de fazer
que bem entendesse
com ela

objetiva

vejo por tuas lentes
todas as cores
do preto e branco

quero comer na tua mão
ver ainda mais
ver por teus olhos
-- santas retinas –
brisa, areia, sal
coqueirais

calcanhar-de-aquiles

oh, jorge
sou o acendedor de lampiões

como me descobriu? como?
não sou nada pessoa
ai, a dor de ser quase carneiro
conto meus podres na literatura
só o papel é paciente, não é mesmo, anne frank?

odeio fazê-lo
mas crio minhas crias
como criados
trato meus bichos
como bichos

oh, jorge
sou o acendedor de lampiões
com licença
senhoras e senhores
preciso sair
pra dar uma
rimadinha

diário

canela vem das índias ocidentais
isso me atrai
essência de canela
doce aroma
gosto assim
fico sonhando com balas importadas
há muito tempo
não ganho balas de canela

outra coisa que me seduz é hortelã
frescor
delícias ocidentais

hoje senti na pele, pulsando
perfume másculo
eram folhas de canela do ceilão
notas de sândalo
poesia pura
perfume, doce
canela, hortelã
sândalo, patchouli
canela
canela vem das índias ocidentais

tronco e frutos

meus filhos
são meus braços
ramos de mim
pedaços de mim

eterna gratidão
escolheram a mim
sim, creio

cada célula sou eu
cada um deles sou eu
toda eu sou eles
amplamente, mãenamente
ombro a ombro
caminhamos na luta
na busca
da linha certa

mãe torta

sol e sombra

leia história curta
sem final feliz
sem era uma vez

conta verdade
que ama
mentira
naamã, naamã
também sou leprosa
mergulho sete vezes no rio jordão
nada me salva

naamã, naamã
também mando presente ao rei
genuflexa diante de sua majestade
que não me recebe

não entro no palácio
aqui fora, porém
pássaros reais
me fazem a corte
baterista toca
a gente pensa: é deus
de repente ele desce do palco
cospe
no prato em que tocou
-- por favor, queira se dirigir para os infernos
eu forçando barra, aos berros

mesmo sabendo
que, por ele
até o diabo
põe a mão no fogo

apenas bons amigos

solte-se de meus cabelos
não podemos namorar
quando afogado
se agarra a outro
ambos
vão profundo

anjo de guarda

quem é você
lenço invisível
que me seca
olhos cansados?

como posso ousar
tocar você
se, quando meus pés
estão à beira do abismo
coloca-me um par de asas?

vibração de olhar amoroso
em meu olhar aflito
leve toque em tuas mãos
teus cabelos lisos entre meus dedos magros
aliança escrava
bondade pura, balada
doçura de teu abraço

apareça, faz favor
por mais tempo
ainda espero

a você arremesso meus uivos
na garrafa lacrada
pelo rei do mar

apareça em nome da lei
do amor

acorrentada

eu, vendida
minhas cartas de amor
só buscam alforria

negro mau
sabe me castigar
é bem capaz
de me pôr no pelourinho
braços abertos
olhos vendados
e não me beijar

novela

quero viver
grande romance
paixão tremenda
não há tempo
poemacabro há de me matar
de amor de amor
não tenho mais medo
toco flauta docemente
doces, vejo sobre mim
olhos sorrateiros de serpente
o resto depois conto
próximo capítulo
é sempre mais interessante

rapunzel

meu olhar procura o teu
na multidão ão ão ão
onde? onde? onde?
meu olhar procura o teu
onde meu juca mulato ato ato ato?
meu olhar procura o teu
seu olhar procura o meu
pacto de sangue
cacto

não volto atrás
creio em você, no amor
meu olhar procura o teu
se não for você
prefiro solidão da masmorra

venha se embriagar
nos cachos de uva de meus cabelos
depurado vinho
de minha mão
não abra mão
falando de amor
devagar a verdade flui
pra ele nada fui
de novo faço
antigo virar novo
rugas no rosto
sou folha
você me divide
viro página
não peço nada a ninguém
só a você
peço água
e te vejo
naquela água
imunda, vasta, imunda
se me chamasse raimunda
haveria rima decente pra mim?

dia das almas

meio perdida
caminhei pelo cemitério
terra úmida, grama rasteira

lápide
me causou estranha impressão
arrepio

vi meu nome e data
retrato amarelado do que fui
sorriso verde

cabisbaixa
caminhei pouco mais

voltei lá
chiquita bacana
da martinica
morreu engasgada
com marmelada cica
tua ausência
dolorosa
nuvem de abelhas africanas
castigando meu corpo

tua ausência
nuvem de gafanhotos
cegando-me

súbita viuvez
todo mundo sabe
quando a magra vem
por isso preparo
linda canção
em que você se reconheça
preparo poemas
pra que eu me esqueça

imortal

a josé paulo paes
com temor


lego tua perna inutilizada
pela qual te dou
minhas mãos braços pernas (fiu-fiu!)
ouvidos olhos boca lábios ridentes

lego tua perna esquerda, inútil
pela qual te prometo – e cumpro –
antigas porcelanas chinesas com fios de ouro
relógio com diamantes flor de vidro azul
de murilo rubião incrustados
livro de cassiano autografado
não pedirei sequer carta tua

é noite
dançarina de li pó baila majestosa
rachel me incita: uma lua tão clara
daria para ler uma carta

saio de tua casa, rindo
na certeza de ter me saído bem
saltitando, feliz, ouvindo poemas doces
vindos da flauta
improvisadas
com tua tíbia
acendo incenso, rádio
de antenas ligadíssimas
contrassenso
em vez de distribuir pão, balas
embrulhar os filhos

viver fazendo onda
soprando poemas
na cara deles
como se fossem bolhas
de sabão
na dor de cabeça
meu desejo
comprimido

inane

quando escrevo poemas
pareço aquele baterista
olhavando
fixamente
pratos enquanto tocava

porcelana fina
minha poesia no prato
e não toco

poema-guardanapo

dobrado em quatro
ninguém vê
arroz voa do prato

domingo à tarde

estou farta de tudo
do nada
de sua ausência

em minha vida
vazio é que não falta

é fogo

assim é tua ausência
tão presente
coração apertado
falta de te ver

quero teu rosto
em minhas mãos
teu sangue em minhas veias
vida jorrando ternura
pelos nervos pele
poros músculos membrana
língua ossos água
unhas dentes
gata dormindo
ao meu lado, na cama
outra, no cesto
amamentando filhotes

minha cachorra kirei
ganindo de dor
me pede spray
enquanto leio poemoscas
espreitando vida que passa
me irritando
abraçou-me seu travesseiro
sussurrou que eu não dormisse
você não voltaria

abraçou-me
agonia

assombro

lindo teu espanto
ao ver o poema
assusto?
sem pedir licença
poema entra
teu coração fechado
te surpreendo?

perdoe estas mãos atrevidas
desatando assim
nó de tua gravata
abrindo tua camisa, peito
olhando com olhos doces
teu coração aberto
pássaro preso em minha mão
surpreso?
deus
encontre-me, por favor
anuncie nos altos-falantes
deste circo nada divertido
esta criança perdida
depois de longo tempo voltei
ursa hibernando
com poemas depurados
chego até você

-- dá licença de entrar?
meio receiosa
mostro? não mostro?
te conheço
agora é questão de honra
você já sabe até onde
sou capaz de ir

tua risada
maligna, tenho inveja
risível risada de quem tem a mim por falida
linda risada
-- olha a ética –
que diz, que me diz:

-- adivinha que tenho nas mãos?
deus castiga
o diabo é acreditar nisso

mortiço

pássaros passantes
enunciando chegada
da morte

dona m. passa
pensando
em cada um
repouso
de cada vez

vez ou outra
um pouso
danem-se os outros

não se atreva

pegue minha mão
escreva poema esculpido
não, não resistirei
seja qual for

siga adiante comigo
dê no que der
fale de amor
rabisque, até
mas não toque
nesse coração

como se (a) tira
flecha
sem sangrar?

alma gêmea

copo de leite morno
madrugadas insones

saiba, querido
tenho sorvido tua presença
intermináveis goles
não quero me despedir

me aqueces assim
no seu colo
durmo sonhando acordada
quando digo
minha doce alma gêmea
todos os anjos, arcanjos do céu
se calam, se recolhem

ao fim, a porta

obrigada
outro dia logo chega
com muitos poemas
sim, volto a escrever
grata, gratíssima
quem vai ler?
quantos poemas?
não importa
poesia é poesia
não é pérola
que se lança aos poucos
sono profundo
quase manhã
no fundo de minha alma
grito mudo
“ainda amo”
fazendo alarido
sem se desculpar
acordando
meus pássaros canoros

glass slippers

boa-noite, cinderela
passou da hora
de você acordar

pegue sapatinho de ouro
jogue na cabeça do prinspe
ele não dá
no couro
se tudo fosse diferente
como gostaria
de estar numa estrada, distante
sozinha, -- sem nada, ninguém
onde eu comigo
ficasse longe de mim

poesia

puta mulher
deusa matreira
olhos enormes, garras firmes
sapatinha de cristal
são para ela meus uivos, gemidos
(m)amo (n) essas tetas doces
me enrosco nos cabelos densos
sou lésbica
de pai mãe parteira

gruta
onde sorvo o sorgo
onde grãos sejam soja
e leite, desnatado

não, não sou lésbica
sou less pica
poelésbica

lágrimas-de-cristo

tanto me colocaram
na cabeça
coroa de jesus te ama
que meu coração
transbordou
olhos inundaram

me enchi
de seu doce amor

basta de migalhas

ele não está comigo
a noite não amanhece
minhas idéias

a propósito disso
o canal lacrimal
insiste em permanecer aberto

ah gostaria de acordar
me fartar de pão

consensual

enquanto você lê
finjo dormir

livro é barreira
se transpondo ao travesseiro
te justificando
ao buscar palavras
pra tua absolvição

faço urgente apelo
ao tribunal
de sua consciência
me acorde
do pesadelo

sina gagarin

vislumbrar mundo
de um azulgagarismo

fantasia
como querer
cassianear
o que há de bom

parati

escrevi poemáximo
-- rabisquei-o todo –
pena
falava de gestos bruscos
ostra rude
pérola caríssima
homem-anjo
quase deus
diabo nas alturas
do jeito que gosto
mundo cão
eu, dolorida
lambendo ferida
de meu cachorro

a pulso

discutimos
me chamou de teimosa
mais teimoso ainda
meu coração sem conserto

pulsando desesperançada
saí pelas ruas
martelando meus ponteiros
parados no tempo
do amor que não badala
pêndulo que não fala

deixa estar, coração
qualquer dia desses te expulso
vá bater noutro peito

sombra

como vê, aqui dentro
que é de você?
não te amo mais
passo por você
digo olá como vai eu vou bem graças a deus
nem te olho

nem poemas escrevo pra você
‘cá de quê eu perderia tempo?
te esqueci completamente
ok.. até a lua aparece quando mando
sou livre, faço o que quero
acampo em qualquer praia
tampo sol
com peneira
tua força
se mostra em tudo

te amo tanto
prezo
até seu desprezo

cerceadura

mato a cigarra
    cantante
dentro de mim
se me incomoda

  trago comigo
olhos de zangão
  a me ferroar

domingo, 29 de março de 2009

drama


faço teatro
meus papéis
muito confusos

represento bem
diretores sempre guardam pra mim
melhores elogios
colegas me aplaudem
casa de espetáculos
sempre cheia

só a plateia
sorri
me desmascarando

rede na varanda

da varanda dá pra ver
flores felizes saltitando
beija-flor procurando o doce
alimento de que necessito

esse sou eu
esse beija-flor sou eu

da varanda dá pra ter
ideia do que é subir
pelas paredes
ramo
procurando luz, saindo do chão
procurando luz de que necessita

esse sou eu
esse ramo sou eu

da varanda dá pra ler
deitado na rede
com lanternas-chinesas
brincos-de-princesas
margarida
bem-me-quer
bem me querendo
procurando o bem de que necessita

esse sou eu
esse bem sou eu

da varanda dá pra crer
numa força que impera
essa força não é quimera
é real, comigo-ninguém-pode
em pleno inverno ou primavera
oferecendo água, bálsamo no peito
que deseja ser perfeito

essa força tenho eu
essa força tenho eu
licor de figo
aguardente da boa
de cambuci
delícia de provar

ritual sagrado
sempre assim
depois vamos à sala
nos beijamos
perdidamente
ao sim de um bolero
falando em zeca pagodinho
gatos
melhor não tê-los
mas, muito bom
alisar os pelos

rolar e deitar

é de sua conta
temos muito que conversar
logo após
deitar
cartas

babies

sonhei
amamentava bebê
ele se fartava
o leite molhava
seu rostinho

meu marido ajudava
a limpar a carinha

sonho plenamente feliz
com bebês
amamentados por mim
sempre, sempre

que é isso? quem me diz?
pássaros cantando livres
no pomar
partitura celestial
dois pássaros se beijando
a natureza mostra
temos asas
nunca li goethe
juro, pretendo ainda
não uso colírio
evito remédios
a dor é no cotovelo

preciso procurar
seu cartão de visita
pegar seu telefone
ligar
vem tirar foto de minha cachorra

perdi pincel do blush
uso bloqueador 30
às vezes cubro rosto com toalha
faço vapor na panela
arde o rosto, mas faz bem

amigo me presenteou
com pedra violeta, esta
t r a n s m u t a ç ã o

preciso comprar bandeide
vou trepar
muro e saltar
roubar bananas maduras
trazer pitangas na cesta
na saída
às pressas
trair minhas sombras
me encantar
com romãs maduras

tenho tapete de cama sem uso

abro a agenda
página rabiscada (detesto)
data marcada
dia 10 na biblioteca
impossível esquecer
professor da usp

rosário
escondido na bolsa
não sei usar isso
nem quero saber

ganhei dois chaveiros
gosto de ganhar chaveiros
procuro na bolsa uma foto
em que eu esteja com alguém

procuro há muitas vidas

maringá, maringá

quando menina
debruçada na cerca
de casa, em maringá
homem negro vinha
com muletas
todos os dias
e voltava

eu, espantada
cheia de medo
ficava no portão
vendo aquele homem
diziam
pegava criança

dia de chuva
outro de sol
de boina no frio
sempre via
esse homem de perna amputada
personagem do meu medo
de antigamente
do meu respeito
de agora

maringá, maringá
depois que parti

arsenal de bobagens

meu batom roll-on
onde está?
esses óculos para longe
presilha que não prende
ninharias essenciais
florais óculos de sol
lembrança do senhor do bonfim
amarrado no pulso
agenda antiga
quantos endereços
carteira de couro legítimo (pra quê?)
dropes de hortelã, talão de cheques
algumas notas, pouco valor

blush, lápis para olhos
brilho para os lábios
tíquetes de viagem
para onde?
dama dominó xadrez
bolinhas de gude
bilhar truco novo amor
sorte lançada

anoto dados
marco tempo

gentileza me oferecer cerveja

me confrontei
com Deus, Diabo e Morte

não é o jovem
que vejo caminhando
nas montanhas Dovre
é minha própria imagem
arqueada, velha
com o peso do barril
da existência
minha cachorra
esparramada
pelo não
fui embora
dei as costas imediatamente
difícil carregar
peso de culpa
eles me apontavam
não olhei para trás
mal sabia
o que ia encontrar à frente
além da noite escura
breu , sombra
nem eu
coqueirais
tortos pelos ventos
por que imitam
a mim?

eu, por mim...

o ermitão
papisa
o mundo
o imperador
a justiça

sorriso largo
na foto

recusar tudo...

prímulas não deixam
chegaram primeiro
apagando
queixas
abrindo
se

menina-dos-olhos da bailarina

sem fronteira bailarina
tocando música
me vendo
muito feliz
dançando
conforme a música
sua mão forte
em minhas costas

me alucina
me ver dançando
seus olhos nos meus olhos
dançando e dançando
ele, me olhando nos olhos

queria me ver
olhando-o nos olhos
olhando seus olhos
de teus lábios
quero mais
coração
saindo pela boca

quando

assim chegou, sonhadoramente
estranhou
quando me viu

minha imagem no espelho
caco de mim
ele me via repartida

outro reflexo
me visita
agora vejo
marcas de seus dedos
no marinho azul
do azulejo

em falso alicerce

não amo por inteiro
minha casa, sempre tombada
dividida
vejo pelo meio
o que semeio
encontrei seu endereço
nunca eu me colocava entre os fracos
você se lembra bem
cachorros ganindo, vento constante
me apavora saber que não posso mais me mover
inerte aqui nesta cama
vento rugindo, tudo balança
cachorros se movem
naqueles bons tempos sentia-me seguro
nervos atrofiados agora
mal que não cessa
muita dor
minha mente girando ao compasso dos latidos dos cães
me apavora a vibração do vento
ventania dos fracos que imaginam
driblar a solidão
dor, raiz brava
cão bravo
cuidado com o cão
teu sorriso
o maior poema
nessa tarde
de domingo

como devolver
ao mar
a onda
que vem
e derruba?

(para um garçom, num guardanapo)
sinos tombando
badalam
pensamentos voantes
andorinha desperta
suas asas
tesouras afiadas
sou frágil
do tipo este lado para cima
meu olhar altivo
puro marketing
juro

sou a maria-manteiga
ele vai sacar de cara
cara, não sou nada
daquilo que ele
está pensando

salvo (por) engano
chegou num momento
em que eu não buscava nada

-- pois encontrou! – rebateu rindo

enganou-se
era tudo
minha carne não é fraca
minha força, um fracasso
meu espírito não é santo
não sou de aço

no meu interior, porém
em cada lado de mim
tem um canto

canto por você
pelos que esperam
(n)um canto de mim

peoa da poesia

laço no rodeio
peoa da poesia
chucra, ainda
domar a palavra
único desafio
não importa que caia
no chão
que esse touro
salte sobre mim
e machuque

sou generosa
narciso
com jeitinho domo a palavra
tentarei quantas vezes for preciso
e ela
domada
em silêncio
me coroa
consagra

posto da gruta

se a poesia
não sai da gruta
saio eu do meu posto
fico puta

já nos beijamos

da janela
vejo toldo verde
toldando minha vista

vizinho ronrona
com razão
atendo ao seu apelo

aparo unhas-de-gato
que sobem no seu muro

melhor fazer o que ele manda
o vizinho
é um gato
seu olhar
salta sobre mim
feito lebre
perdeu um dente
num pesadelo
oh creiam-me
foi terrível
se ver no espelho

incrível, ficou louca
falha irreparável
horrorosa
a bruxa pavorosa
fechou a boca

preço do prazer

pior coisa
é escrever poesia
sabendo que
a qualquer hora
vem um cara
te cobrar

você nem deve
se ali-babá
babasse
até eu
beijaria
sua face

boba
lamberia
sua baba
percepção da realidade
porta aberta
paraíso à vista
explícito amor
delírios no olhar
delícias na boca
prazer prazer
encantada
cenário (ilu) minado

vida
eterno ensaio
pode ser esta
minha última queixa

nunca represento pra valer
pior
esqueço sempre
a deixa

prova dos nove

na reconstituição dos fatos
eu era aquela
aquela mesma
em câmera lenta
tonta
que demorou pra sacar
a outra
é que era

vidros

textual
chegando bem próximo
da vitrine
me expor assim
como tantos

pena – não uso óculos
não me ver
como tantos

sem retoques
dou toques
tudo bem
remédio
trazendo alívio
natural
pecado
é dizer que você
nunca foi amado
sua ausência
não é importante

virar pro lado
na cama
pensar que o inferno
é muito
muito mais interessante

é pau, é paulo nubile

quem disse
meu time
tem sempre que ganhar?

vou remexer
tenho que mudar
chutar a barraca
ou o placar
sem reservas
ser meu artilheiro, meu goleiro
meu técnico, minha burrice
meu juiz, minha mãe
culpado, claro
fui eu – como sempre
comigo ninguém se doeu
doeu meu corpo nu ao açoite
a alma
na calada da noite
não soluça – perdoa –
nem se acha bonita
apenas volita
a mim

jogo a poesia
para cima
ela vem
cara
e
coroa

louca

me olham desse jeito
me perguntam
por que sou assim
não respondo por mim
a vida
me deu
o que eu tinha
pra dar

brisa e flor
chá das cinco

a poesia
é meu lar

aqui chego
me recebo
puxo a cadeira
trago o chá

me conforto
me seduzo
fecho a porta
fico a sós
comigo

a pulso
me expulso

me perdoo
palavra doce
cai do lábio
inaugura
minha ida
qualquer cara
que me chama
de princesa
vai saber
sou de cama
e mesa
inteiro anseio
nem a poesia
pelo meio

viria

tudo que sonho
é ver um dia
o cravo
pelos olhos da rosa

veria
risonha pétala
no olho
que sonha
oh my pretty emily

me abraça
colhe tuas bagas
a quem afagas?

me (al) veja
teus acordes
de quem som?

o revés da filha

após meus partos
sou pregadora do evangelho
segundo eu mesma

não vou à mãe
senão por mim

sexta-feira, 27 de março de 2009

anjo soprou
no ouvido dele
vai, carlos
ser lyra na vida

hello? obaaa...obama

se tudo nesta vida passa
por que ninguém passa
meu telefone ao obama?

sapa

não fui a escolhida
não fui a escolhida

nunca terei vaidade
jamais me orgulharei
de coisa alguma
serei sempre pó
mesmo que seja noutras vidas
princesa ou rainha

não fui a escolhida
não fui a escolhida
amargo tanta dor
por ter sido
preterida

amargo o sabor
de ter provado
o fel

não engulo
o que acabou
fingindo que se acabou doce
o que era
poesia
me deixa
fora de órbita

de qualquer lado
que o sol bata
é sempre noite
em mim
frio de rachar
maravilhoso
ele vive me mostrando o céu
e eu, olhando pra ele

ser o que fui

sou mulher forte-frágil
engolindo fogo
na lona deste circo

sou mulher-serpente
oferecendo maçãs e mentiras
aos passantes

sou doce mulher
cuspindo
sementes
sou homem forte
lutando
no dia-a-dia
contra monstros
devora dores

sou homem frágil
baixando a guarda
a todo instante
jogando a toalha no ringue
mandando beijinhos à plateia
escandalizando-a

sou homem
que assusta
seis meses sem escrever poemas
te vejo numa fila qualquer
chego em casa
peço audiência com deus
penso
é o diabo mesmo

usávamos cinza

bela noite
ele me pediu
pra contar
os botões de meu vestido

acreditei
no rei-capitão-soldado-ladrão
e não fazia sentido
te procuro
mesmo quando
não te procuro

te amo
mesmo quando

durmo
quando mesmo?
perguntei ao meu anjo de guarda
onde você estava
ele me respondeu
que me guardava
meu amor
é do mundo
nem a si
pertence

se jura a si
é fera no bote
corte profundo

ao longe

triste
o choro
do uirapuru

quem te ouve
tem a sorte
de entristecer também
o choro que está contido
não se contém

(re)colho tuas lágrimas
de tanto não ter
de tanto não ser
não quero mais
ser a única
nem a preferida
nem a outra
nem quero

relax, baby

afrouxe a gravata
seja mais você
você mais eu

tua gravata
borboleta
que me mata
menos eu

laços

andorinha sou
calma e bela
- peso nas asas prateadas -
não vou longe

enrosco-me
presa nos avoantes braços
de um belo pássaro
voo longe

é ela, saca?

é ela que sabe de mim
me censura brincos ridículos
- sábia irmã -
acerta o batom
não me imita

pago pra ver
aquela
que beijo no espelho
e me excita
lua cheia
non sense
leminski me convence
eu te amo
disse ao meu espelho
do lado contrário
nem me lembro
acho que chorei
no dia dos namorados

em casa
entre tantos
estava só
a solidão do só

acho que chorei
nem me lembro

mil e uma noites só

pedrarias
desposar o rei
não sou a única
folia, risos
vozes ecoam
do palácio
decepada
tua mão ainda toca
o rosto

roça a mão
o dorso
numa pele áspera

beija a mão
veludez desejada
na dor

estaca zero, sabe?

sou objeto
de tua investigação
motivo da tua lupa
teus olhos nas pegadas
nos meus telhados de vidro

quanto mais você procura
mais vai descobrir
que sobre mim
nada sabe

elementar...

hana kirei

minha gata
sobe nos telhados
à procura
de um grande amor, talvez

parece-se com a dona
para ela
fazer amor
é quando dá
na telha

vulcão

nunca senti
na pele
ciúme de homem

fico imaginando
como seria
fúria mansa

pura, simplesmente
(in)correta, perfeita
na pele
ardendo
sentença brutal
a um inocente

nunca senti
na pele
essa língua
de fogo

quarta-feira, 25 de março de 2009

Meu coração e possibilidades

-- Que história é essa de querer me abraçar assim? Nem te conheço ainda.
-- Vai conhecer.
-- Não gosto deste tipo que chega com tudo. Ainda mais gerente de banco. E principalmente depois que fiquei sabendo que você tem arma.
-- Bobagem. Tanta gente tem. Dá segurança.
-- Sou do tipo que promove a paz. Você já devia ter percebido.
-- Percebi, sim senhora. Já sei.
-- Vou denunciar. Te entregar. Melhor nem se aproximar muito de mim. Eu mordo.
-- E promove a paz, hein? Eu mordo também.
-- Muita intimidade me assusta.
-- Eu posso ajudar você.
-- Não preciso de ajuda. Nem sua ou de homem algum. Sou mais eu.
Tão ríspida, logo parei pra pensar por um segundo. Meu coração pulsava pro lado dele e não queria perdê-lo. Talvez fosse minha única chance.
Ele veio se encostando mais e mais. Eu, ainda assustada e trêmula, levantei a blusa e ofereci o seio -- a conta de sua boca.
Ele fechou os olhos e viu a partir daí uma mulher muito, muito generosa.

Dia dos Namorados

Descaradamente ele sorriu pra mim. Eu percebi algo estranho escondido no bolso de trás das calças dele. O que seria? Não quis ser indiscreta. Rodamos um pouco mais, cada qual em sua bicicleta e ele sempre com um sorriso malicioso. Não aguentei mais. Abri o jogo.
— Basta, Marcelo. Por que você está rindo tanto? Parece bobo.
— Não é nada importante. Esquece.
— ¬Então, me diga, o que é isso aí no bolso de suas calças?
— É pó — ele me respondeu sem pestanejar. Tirou as mãos do guidão e começou a estalar os dedos, brincando.
— Pó? Droga? — gritei com raiva, perdendo a calma.
— Não. É cianeto.
— Veneno, Marcelo?
— Hum hum.
— Pra quê? O que você pretende com isso? — fiquei nervosíssima, irritada com tamanha displicência. Eu sabia. Ele tinha crises. Andava meio deprimido ultimamente.
Não me respondeu mais nada. Apenas sorria. Chegamos em casa. Encostamos nossas bicicletas lado a lado no muro. No portão, ele me beijou, beijou, beijou. Sorrateiramente tirei o pacotinho do bolso dele. Ele não percebeu nada. Eu voltaria pela margem do rio. Pobres peixinhos podres. Marcelo me beijava e sorria, sorria. Um riso vago, bonito, que cheguei a pensar em algo que pra mim valesse ouro em pó.

VERMELHO DE BOLINHAS BRANCAS

Se ela não fosse buscar água no poço, quem buscaria? Pegava o balde e todas aquelas tarefas que adormeciam e acordavam junto com ela. A rotina a desgostava profundamente. “ -- Esse mundo não vale a pena mesmo” -- resmungava, ora com a vizinha do sítio ao lado, ora com a neta.
A neta era muito preguiçosa. Não podia contar com ela nem pra dar milho pras galinhas. “Tininha seria uma galinha?” – as vizinhas cochichavam arriscando um perigoso palpite.
-- Tininha,vá buscar cana pra moer.
Lá ia a neta descalça, short curto e pernas bronzeadas. Voltava com meia-dúzia de canas e ficava sentada feito índia, chupando cana. Gostava de chupar cana assim, sozinha, e enquanto colocava a bagaceira de lado, ia pensando em dar nó na vida. Era boa, de bom coração, mas sempre, sempre tristonha.
-- Tininha, vá colher amoras pra geléia.
Ela não se recusava, mas demorava pra voltar. Às vezes, a Lua chegava antes.
-- Você gosta de amora? -- perguntava o namoradinho (um deles).
-- Adoro – respondia Tininha fechando os olhos, enquanto levava à boca uma amora suculenta.
-- Vou contar pra sua vó que você namora.
Dava de ombros. Ficava horas relembrando os carinhos do namorado e vinha comendo amoras pretas e docinhas. O namorado bem que preferia outras amoras. Escuras e docinhas, também.
-- Pare de ficar assim como quem fica olhando a morte, Tininha. Vá tomar banho no riacho que é pra ver se desanuvia essa cabecinha, menina. Tão moça e com a cabeça cheia de minhoca.
As tetas de Tininha se misturavam às tetas das vacas no riacho de águas barrentas. Nisso tudo obedecia a vó, sempre tão paciente com Tininha. Tirar água do poço, isso não gostava, não.
Quando ia buscar água vinha à sua mente aquela história que ela conhecia tão bem desde criança. Sua avó sempre a repetia. Era tão triste e calou fundo na alma de Tininha. Uma menina havia sumido de casa. Todo mundo. A cidade toda, a polícia, enfim, todos estavam empenhados em achar a menina desaparecida. A menina na ocasião usava um vestido de bolinhas brancas.
Um dia, quando a vizinha de uns ciganos foi tirar água do poço, encontrou pelo caminho pedaços de um tecido vermelho com bolinhas brancas. Descobriram o corpinho da menina dentro do poço. Dentro do poço. Dentro do poço.
Depois disso sempre que Tininha via uma cigana se afastava rapidamente. Às vezes quando ia à cidade tremia quando alguma delas lhe perguntava:
-- Deixa ler a mão, morena?
Ela apressava os passos. A morte da menina tinha sido vingança dos ciganos. Vingança dos ciganos. VIN-GAN-ÇA. Tininha olhava o fundo do poço. Pro fundo do poço. PRO-FUN-DO.
A avó colocava a mão na roldana pro balde descer lentamente. balde voltava cheinho. Cantarolava enquanto tirava água:
“Vestidinho branco não orna pra ninguém...”
Nem pra Tininha, mas os de bolinha caíam-lhe muito bem. A netinha adorava roupas de bolinhas brancas.
A água do poço poderia apagar uma chama vermelha. Ou uma brasa. Debalde. O peso do balde aumentava pelo caminho. E pelo caminho, passos e água iam pingando como bolinhas brancas num vestido vermelho.

Soma, o enigma

Suponhamos que quando a gente se conheça eu esteja usando este vestido, lindo, curto, que estou usando agora – legítimo jeans – presente de um amigo querido.
O vestido tem vários botões metálicos. Vamos que você chegue e me peça pra contar os botões porque você é economista conceituado, formado pela Getúlio Vargas e fanático por balanços, somas, entende de exatas, etc. Suponhamos ainda que eu acredite que você vá contar os botões e você conte mesmo tocando-os com sua sensibilidade: um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove. 0K. A conta está certa. Você contou os botões no meu corpo e eu te dou nota dez. Mas, eu quero a prova dos nove – penso com meus batons e vou contando tais botões um a um, assim: primeiro, segundo, terceiro... abrindo cada botão devagarinho pra que você saiba que agora estamos falando de números ordinais. Abro todo o vestido te olhando firme nos olhos. Surge a pergunta, o enigma: será que você ainda tem alguma dúvida de que este vestido é mesmo o legítimo índigo blue?

A PATINHA FEIA E A LÂMPADA MARAVILHOSA

Primeiro respingo

Patinha Feia leu num muro qualquer da cidade: VOCÊ É LOUCA DE FEIA e acreditou ter sido escrito pra ela. Saiu correndo, apavorada e gritou com voz estridente:
— Mamã! Mamã!
Mas, a Mamãe-Pata parece que nem ouviu, porque bateu as asas rapidamente indo atender seus outros filhotes do lado esquerdo da Lagoazul.
Mamãe-Pata era assim mesmo. Gostava de mostrar serviço, principalmente quando e onde não era solicitada. Quando precisavam dela the wind blows, the sea flows and nobody knows — traduzido por não vi, não quero ver, tenho raiva de quem viu.

De uma queda foi à lama

Patinha Feia viu sua imagem na água e não quis acreditar. Era ruim demais pra ser verdade. Pé de pato-mangalô-três vezes:

espelho, espelho meu
esta feiúra refletida
serei eu?

A resposta foi um espeto transpassando o coração. Chorou, chorou e chorou. Amargamente. Raivosa, bateu a pata. Pegou o espelho pra confirmar. De frente, de costas, de perfil, de joelhos, deitada, depenada. Sem pena, veio a resposta:

ó feiosa, Patinha
quem você queria que fosse?
a Liz Taylor, queridinha?

Tava frita. Chorando muito e correndo com jeito de patinha-choca foi à barra das penas de Mamãe-Pata.
— Mamã! Mamã! Como sou feia! Mamã! Mamã!
Mamãe-Pata cascou o bico de rir. Nunca disse o contrário. O que custava a esta mãe da filha dizer:
— Você é linda, Pat. Tudo em você é lindo e o que é lindo não precisa mudar.


Patinha Feia recorre à cirurgia plástica


Dr. Pitanguy,
Será que dá pro senhor me ajudar? Sou horrível e acredito que beleza é fundamental.
Preciso operar o nariz que é muito grande, a boca (meus lábios são finos), tenho queixo duplo, os dedos das mãos são nodosos, os seios tão pequenos que não enchem as mãos de um homem. A barriga um pouco flácida. Uma lipoaspiração aqui e ali resolveria meu caso. Diminuir um bocadinho o bumbum também é necessário. Tenho pés-de-galinha, o que me incomoda, é óbvio, e bico-de-papagaio.
Depois, procurarei um massagista, um esteticista, um dermatologista, um naturalista, um ortopedista, um tristezista.
Enfim, não há muito o que fazer e confio em sua habilidade.

O assistente responde, urgente e gentil:

Senhorita Patinha Feia,
Sim, podemos fazer algo por você. É preciso apenas que nos envie uma
foto em preto e branco.

Nem flambada. Inimigos não mandam flores, feias não mandam fotos. Muito obrigada.


A duras penas

Patinha Feia bem que tentou algumas aproximações. Amigos, crianças, vizinhos, animais, namorados, parentes e tal.
Cada qual estava tão mergulhado em seus problemas. Eram dificuldades econômicas, lutas, conflitos, conquistas, comcoisanenhuma, decepções, críticas infundadas e por aí vai.
Patinha Feia percebeu — e não foi fácil — que não havia neste planeta alguém que pudesse dispensar a ela atenção, amor e consideração de que tanto precisava. Carências mil e uma noites.


Patinha Feia quer ser importante

Escreveu um livro: A Patinha Feia e o Crítico Literário. Pensou que escrever livro fosse mais fácil que paranaense ganhar prêmio literário no Paraná. Caiu das nuvens. É só pena que voa.


Pena que voa

Sem sucesso em suas múltiplas investidas, decidiu — num gesto de autopunição e autodestruição — cursar o magistério e ser professora do estado.
— Melhor desistir da fama — grasnou Patinha Feia. O sucesso é efêmero. Não vale a pena.

Patinha Feia é levada no bico

Patinha Feia teve uma queda pelo dr. Patolino que, cavalheiro, acudiu de chapéu na mão. Porém, ela era tímida e ríspida (dava patada) e a ele faltou paciência e tato pra lidar com aquela selvageria toda.
— Me analfabeta, you gênio — tentava Patinha, mas eles não
falavam a mesma língua. Amor pueril, patônico. Acutíssima, essa penosa
paixão. Nada versos nada. Nada consta. Nada a declarar. O que nada é
peixe. Como peixinhos do aquário nadavam e se esbarravam. Patapateta, ela
encostava ele na parede. Tudo conversa mole. Ele encostava ela na parede, mas
ela não ia nas águas dele.
Parede vai, parede vem, um dia, exausto das braçadas inúteis e de
achar que caiu como patinho, ele chegou pra ela com zombaria e:
-- Você vai dizer se gosta de mim.
-- Essa é uma prova de fogo — sapecou ela.

O cravo teve um desmaio

Patinha Feia tinha um amigo íntimo. Só por cartas. Como permitir outro tipo de intimidade? Odiava quando lia: “E tua foto?” Seu amigo, leonino, de cada dez cartas mandava uma dúzia de fotos. Ela, porém, nunca permitiu a quem quer que fosse ver seu rosto medonho. Muito menos agora, coberto pelo véu da melancolia e pelo passar dos anos. A sua fisionomia era uma barreira interrompendo os laços afetivos selados com “um forte abraço”, “um beijo carinhoso”, “da amiga de sempre”, “nunca me esqueça”, “prezada amiga Patinha Feia”.

Fotografia — ponte para o esquecimento.
O amigo a quem tanto queria, numa espirituosidade ímpar, mandou um retrato dela de presente à ela própria. Ele havia conseguido sei-lá-onde. Não fez por mal. Boi da cara preta, pega ele não.
Nunca mais, ai, nunca mais ouviria de seus lábios (as cartas manuscritas falam como lábios sinceros): amanhã, corações partidos.
Como uma concha o sorriso tão raro naquele rosto sofrido se fechou. Ele não fez por mal. Só queria agradar. Desculpas? Uma na frente da outra: sou muito ocupado, você sabe. Não tenho mais tempo. Perdoe a demora. Prometo arranjar um tempo só pra você.
As cartas voaram para o Céu-dos-Amores-Para-Sempre-Lacrados. O cravo saiu ferido e a rosa despedaçada.
Mamãe-Pata nem tchum, ocupadíssima com seus afazeres na Lagoazul.
Uma separação não pode ser assim, brusca, e não era mais possível ficar sem a sua, sem a sua companhia.
Patinha Feia esfregou a lâmpada e nem esperou o príncipe aparecer. Deu um único mergulho no oceano pra mais tarde renascer — quem sabe — um lindo cisne.
E em nosso ouvidos só ficou a voz estridente gritando, aflita:
— Mamã! Mamã!

PASSEIO NA FLORESTA

Chapeuzinho provocava Lobo Mau. O monstro sentado na cadeira de balanço. Chapeuzinho passava de um lado pro outro da sala. Ingênua ou se fazia de. Saia curta, justa. Rebolava. O balanço provocava. Dias. Semanas. O Lobão não achava aquilo justo. Não se continha mais. Babava. Até que um dia, levantou-se e puxou-a para o seu colo, dizendo: — minha flor, você tem idade pra ser minha netinha. Ela pensou: “bem que mamãe me avisou...” E ria. Gostava dessa história de se sentir bem mais nova que ele. Capim novo. Ele era muito paternal e isso a atraía sobremaneira. Ela queria ser vaca prestes a ser ruminada pelo boi. Boi Barroso. Boi Pitanga. Boi Bumbá. No vaivém da cadeira de balanço, ele e a menina apetitosa. Ah, minha prima, minha priminha. Dá cá um abraço e uns beijinhos...

Serra, serra...

Abraçou-a ternamente prendendo a respiração. Depois, apertou-a com força contra o peito másculo. Sentiu os seios firmes, duros, sob a blusa de voal. Roçavam e roçavam. Nariz com nariz. Por que esse nariz tão grande? Risinhos. Peitos arfantes, agora. Nas mãos quentes dele as manchas senis. Mãos longas dentro da minissainha, apalpando as coxas formosas. Os seios. Procurou afoito a boca vermelha. Encontrou-a . Olhos fechados. Curtos beijinhos como a dizer: gosto de você. Longo beijo. Prolongado. Vigoroso. Apaixonado. Bolinação.

Serrador...

Levantou-a e sentou-a de coxas abertas em seu colo. Assim, minha flor — dizia, num fio de voz. Assim está bem. Maduro. Cabelos brancos, barba branca. Papai Noel, magro. Ela rindo, obedecia. Pensava que seu Lobo era mansinho e não pegava ninguém. Pois pegou-a . Balançavam. A cadeira de balanço. O vaivém cada vez mais rápido da cadeira. Ela abriu a calcinha na lateral, mostrando a flora reluzente a cada balanço da cadeira. Os muitos pelos escondendo os mistérios e perigos da floresta. Ele — pupilas grandes, dilatadas, brilhantes. Por que esses olhos tão grandes? Ela, a menina dos seus olhos. Penetrou-a em êxtase. Entrou no país das maravilhas maravilhado. Por que essa boca tão grande? — agora era o monstro quem perguntava, com água na boca. E ela — Por que essa cadeira balança? É pra me comer melhor? O balanço dos dois. Caça e caçador desarmados, rendidos. No balanço, o abraço. Beijavam-se no pescoço. O colarinho da camisa bege. Cuidado pra não marcar. Batom vermelho. Ele ergueu a blusinha fina. Beijava os seios nus. Inteiros. Arrepiados. Lambia-os. Língua viva sugando o mamilo róseo. Mãos apertando-lhe as costas, o bumbum. Mordiscando bombom. Raposa chupando uvas verdes.

Serra o papo do vovô...

Meu Lobo Mau — gemia a menininha da sainha (in)justa. Minha querida, minha flor, Maria Bonita — suspirava ele enquanto acariciava a vulva que desabrochava. Orvalhada. Bom petisco. Bota bom nisso.O vaivém da cadeira de balanço. O movimento frenético dos dois. Perfume suave nos cabelos amelados a estontear. Endoidecer. Se os anjos do céu são loiros... Apertou com fúria louca aquele corpo angelical. Impetuosamente, contra seu corpo forte. Peito peludo de lobo. E depois não vá dizer que você se arrependeu. Minha flor, minha querida, Maria Bonita. Bonitinha e tão mariazinha. Minha anja. Depois, veio a gosma. Jogou-se languidamente no encosto da cadeira. A esmo como a gosma. A cadeira de balanço. O balanço da cadeira de vime. O balanço provocava. O vaivém já quase não vai, quase não vem. Quantas ripas que serrou? A cadeira quase parando, parando. Lento, o balanço. Lentos, o velho e a cadeira. A cadeira parada. A bengala inerte ao seu lado. Dor nas cadeiras. Lobão virou mingau. Foi comido por Chapeuzinho. A sonolência vencendo-o, atirando ao chão o livro que tinha nas mãos.
Emanuelle, la belle

misturada às flores vermelho-vivo
vejo Emanuelle
sua tiara
rosto
mundo
acetinado

com que sonha Emanuelle?
que pensa, diz
la belle?

esparramada nas almofadas
gata siamesa
de sapatilhas brancas
levanta e rodopia
na dança imaginária

gira gira gira
que você dança
no rodopio, Emanuelle?
Brisa em mim

brisa, vem
suaviza
acaricia meu rosto
leveza pura
suave ternura

Brisa de colo
espalhando chuvas de pétalas
sopro que não vejo
e sinto sua presença
tão suave quanto forte
também quero amar Brisa

de onde vem essa Brisa?
criança-luz
clareando tudo pelo caminho
abrindo risos por onde passa
também quero cantar Brisa

doce amor
brisa, enfim
Brisa em mim
você é a...?
para a gêmea de Melina

espelho
te persegue
quer outro lado
consegue

é cedo
nesta data, querida
dose dupla de felicidade
doze anos?

linda flor
mostra quem é você
ou penso que é ela
perdão
perdão... Rafaela
é a mesma

para gêmea de Rafaela

dúzia de velas
melinitas explodindo risos
encantos
(em) cantos da casa
palmas estouro balões
olhar
doce doçura
candura

vai dar bolo
adoçado com mel
Melina

sem presente de natal

ao menino que morava
na minha rua

alta madrugada
voz
na via-láctea

pequenino ri
rouba sossego de são pedro
pede chaves do céu
para Papai Noel
pastora de nuvens

quem canta ao mar
canta para mim

dó-ré-mi não sei
Clara clareando escuridão
claro canto no canto escuro
Clarinda, nome de herança
claridade é criança

cantiga nova ou antiga
ecos profundos
bailarinas, bailarinas
se fala de nuvens, violetas
fala de meninas
boato de porquinhos

era uma vez
três porquinhos

primeiro
jogava papel no chão

segundo dizia:
-- pente, lambe sabão

terceiro
lavava as mãos
toma lá-dá-cá

somos filhos de conde
escrevemos poemas
não conheço teus
não saberás meus

guardados dentro do coração
brincam como nós
de esconde-esconde
de rei-capitão
barra-manteiga
trevo dá sorte

um dois três
um dois três

sou eu
procurando trevo
de quatro pontas

um dia vou achar
por isso busco nas mil folhas
trevo especial

ele existe, ele existe
está no meu jardim
se não achar
peço ao gênio do Aladim

com licença
vou contar outra vez
um dois três
um dois três
um dois três
colar de pérola

porquinho foi à feira
não sabia que comprar
comprou colar lindo
pra porquinha usar
ela, descuidada
arrebenta

pérolas rolaram
os dois se separaram
desgostosa a porquinha não morreu
engordou
se não entendeu
azar foi seu
e agora, maria?

uma boneca
duas bonecas
três bonecas
quatro
cinco
seis

ganho mais uma
fico temerosa
você vai dizer
-- conta de mentirosa
olha olha
linda bolha de sabão
colorida leve
maravi...

essa não!
ninguém é de ferro

primeiro deveres de casa
depois à imaginação dê asa

você nunca está sozinho
seu cão é seu companheirinho

dobradura é coisa boa
ou chapéu ou canoa?

você no alto da gangorra
amigo te esquece, desce
às vezes acontece...

com gato cruel de TV ninguém pode
mas por favor, não puxa bigode

quer brincar de bilboquê?
claro, vou torcer por você

desenhe a mamãe na areia
olha o sorriso da sereia
miau

cadê
a sardinha
que tava
aqui?

gato
comeu
gato
comeu

cadê
o gato?
cadê?

cadê
o gato?
cadê?
ela é doce

formiga adora doce
não engorda
é chique
nunca vi formiga
faltar em piquenique

vida sempre doce
mesmo nas tarefas dia a dia
se assim não fosse
chata seria a vida

precisa de amiga?
procure formiga
você é doce?
gosto docê
caracol

bom mesmo é caracol
viver dentro da casinha
nem precisa de cachecol
vive quentinho

campainha toca: plim! plim!
amiga vem visitar
papo bom no ar livre
trata bem, não convida pra entrar

caramujo vive...
-- limpo
caracol toma...
-- chuva

chuva com sol
casamento de caracol
mãozinha pra centopeia

no meu caminho
não tinha pedra

não tinha pedra
no meu caminho

ai! ui! ai! ui!
no meu caminho
ai! ai!
tinha espinho

que faço?
centopeia tem tantos pés
pisar no espinho não é nada
ai! socorro! me acuda!
preciso saber
qual é o pé

você me ajuda?
rock grilado

cri cri cri cri
cri cri cri cri

vamos lá no rock genial
cantemos todos juntos
quando grilo canta
vida é festival

cri cri cri cri
cri cri cri cri

não peça pra parar
você pensa que é meu dono?
quando você canta
também fico sem
sono

cri cri cri cri
cri cri cri cri
rota de voo

sou libélula
livre, linda, leve

voo voo voo voo
se quero alcanço
voo voo voo voo
não me canso

se você tirar asa
de meu corpo
asa ficará ao léu
não voarei
no azul do céu

se você tirar duas asas
ficarei vermelha, brasa
pimenta
depois
quem aguenta?
dança do bole bole II

não sou gente
detesto asfalto quente

bole bole bole
mas não me esfole

minhoca não é boboca
não me chame de mole
sou grande amiga
vou te contar segredo:
a vida é dura
pra quem é mole

ah! vida boa
me chame pra um buraco
faço buraco todo dia
só não me convide
pra pescaria...
pirilampo no campo

estrela marota
na escuridão da noite

estou aqui
olhe para baixo
ah! ah! pra cima
venha ver se estou
na esquina

veja como brilha minha luz
estou pertinho de você
quando apago de novo

enganei bobo
na casca do ovo

viagem à vista

ele publica
nossos livros
nos leva para aventura
sem igual
caravela
de sonhos

-- viagem à vista!
é nosso capitão

todo mundo se lembra do leitor
quem publica nada merece?
palmas para o editor
todo mundo agradece

terça-feira, 24 de março de 2009

non ducor, duco - o escambal
onde dá
essa prisão?

caminho
longo corredor
em que pavilhão
encontrarei as chaves?
qual carcereira dócil
me dirá:
-- venha, futuro auspicioso

está claro

quero afastar de mim
para longe, para longe
tudo que é modesto
oposto
vem de encontro ao que busco
para longe
para longe, lusco-fusco

aparto de mim
para bem distante
que há de modesto

o que é
ainda É
Modesto
estou voltando
pra mim
me recebo
com pedras na mão
não penso
logo
descarto descartes

sinto
logo, existo
sinto muito

ultrassono

ele chuta
minha barriga
eu durmo
sorrindo
sonhando
com anjinho
abacateiros vigorosos
pintangueiras - da sua infância
plátanos ipês
todas as espécies de amores
amoralando
seu paladar
o que vale
e o que corta

quanto vale
o vale
que corta

quanto corta
o vale
que exporta?

não vale
usar vale

foliã

nem sei se danço
ao ritmo
de seu tambor

me toma
pela cintura

me fantasio
ora de algas
ora de peixes
carrego alegorias

sereia
salto
da tela
do pintor

cacho perfeito

frio da cachoeira
no dorso quente
acorda

olhos fechados
veem no peito
diamante
novo em folha

limo
segue na correnteza
vai vai
some ao longe
pra nunca mais voltar
vai vai
o limo vai longe
lligeireza
o coração
todo beleza

romantische strasse

não é um sonho
caminhar pela Estrada Romântica

não é real
caminhar por essa estrada

não é ilusão
caminhar por essa estrada

não é romântico
caminhar por essa estrada

é perder-se
e nunca mais se encontrar
nesse paraíso caminhar
por essa viagem
se esbaldar, desfrutar
serpentear na fantasia

sou fogo

tenho defeitos
pra ninguém
botar defeito

penas e painas

oro
sem mesquita

peço perdão
sem esperanças

sorrio
sem cor

abraço
sem braços

pesadelo
viro sonho
e o travesseiro

sua ironia,minha espera

não é por lá
muito menos por aqui
não vá por mim
não sei por onde é
mas, não é por aí
segura
esse meu medo
só pra você
não guardo segredo

amor de pai

o caminho do cemitério
é longo
mas nem tanto
que eu não chegue lá

visito meu pai
ao me despedir
ouço sua voz
como era seu costume
-- ainda é cedo

Pinheiro

plantarei grama
fina, gentil
no sepulcro de meu pai
algumas florzinhas brancas
às quais ele fazia gosto

gotas de lágrimas
incessantes
manterão verde
sua memória

disto do bambual

melhor seria
se eu não fosse bambi
bambo bambu
embalado ao sabor
do vento

queria ser esta
rocha firme forte perene
entregue ao bater das ondas
umidalva sempre
sem jamais ter ouvido falar
de lágrimas
e cordura
queria seresta

batida por vendavais

bátegas de chuva
lírica de camões
-- presente da rose --
bebê sugando o seio
fluem torrentes
de meus olhos
comilões

temerei o terral?

de lua

primeiro ano
lua-de-mel
segundo ano
meia lua-de-mel
terceiro ano
dragões engolindo sapos
o quarto
minguando
ainda assim
proponho amor
no cais
destilo mel deste fel
busco alegria
onde quer que ela
viceja

minha crueldade

no ritual de purificação
sou borboleta
que Deus segura
pelas pontas das asas
com dois dedos
sobre a vela
acesa
Deus habita
o seu olhar

apatia

hoje eu queria
sentir fome
ou sentir o que sente
quem come
ávido

regras da paixão

algo vermelho
plasma
querendo deixar
as pernas bambas

quente
espaçadamente
a dor vem em cólicas
entre os limites
do pare, siga
vermelho silêncio
vermelho grito
bonito

poesia, miado e tamborim

todos dormem
só os gatos
testemunham
minha falta
de sorte

antes que os gatos cantem
já me traí trezentas vezes
quem não tem galo
caça com gato

gataria me ensina
a miar poesia
chiar, uivar
sem acordar os demais

miar poesia
arrepia os pelos
aranhas
eu o quero
nas minhas teias

coração-colmeia

cala a boca, coração
trabalhe mais e mais
bico calado

sei de sua sangria
dia após dia
bombeando o puro
e o impuro
separando o joio do trigo
querendo casa comida
e alma lavada
me vê
abre o jornal

me vê no jornal
se abre
quero despertar
algo novo em seu sonho
já não era sem tempo
você dormir
com uma despertadora

sem palavras

mergulho
num turbilhão
de palavras
-- benditas palavras –
delas falo
não tenho palavras
para agradecer

palavras são pipocas
arrebentando
na boca da gente

jogando com palavras
palavrinha palavrão palavreado
tenho a palavra – palavra-chave –
pego na palavra e abro portas
peso a palavra vulgar
meço as palavras – dobro a língua
tenho a palavra fácil – ah!
difícil, trava-língua
a mais comprida
anticonstitucionalissimamente
tiro a palavra da sua boca
soletro PA-LA-VRA
corto a palavra sem sentido, besta
dou a última palavra: basta
aureliana, aprendi a palavra mais linda
do dicionário
libélula
soprei, ela criou asas
voou... voou...
verba volant, scripta manent
palavra que dou a palavra
descabida, atrevida
vivo das palavras vivas
alimento abelhas com elas
viva às palavras-colmeia
viva! viva! eu morro por elas
peço a palavra – um aparte
prefiro proferir meu discurso
em quatro palavras
doa em quem doer

palavras são fios de espada
cortando
a alma da gente

palavrinhas mágicas
com licença por favor desculpe obrigado
obrigada por tê-las dito, lulu santos
palavras cruzadas
estou ilhada de palavras
por todos os lados
num redemoinho de palavras loucas, vãs
eu te amo! – santas palavras! – que me dirá?
palavra de rei não volta atrás
palavras são meu guarda-costas

palavras são lenços bordados
secando
lágrimas da gente

empenho a palavra
ao molhar as palavras
chico buarque tem o dom da palavra
faz o que quer com ela
azar dela – sorte nossa
feliz natal próspero ano novo
acentuo minhas palavras, reforço-as
não são torpes nem ridículas
não sei se são palavras lindas
mansas, doces
sussurro murmúrio burburinho cochicho suspiro
palavras pesadas, sujas – minha paranoia
palavras cruéis, arsenal de palavras
trunfos escondido
na manga da camisa
tenho cartas bem junto do peito
palerma
desculpe, escapou a palavra

palavras são borboletinhas
caçando
olhos da gente

palavra, sou de palavra
tem político que é de ação, não de palavra haha
duas palavrinhas, por favor
dois dedos de prosa
palavras dulcíssimas amaríssimas tristíssimas
leva-me o furacão das palavras
desvastação destruição
palavra de honra
palavras me seduzem me matam
me iluminam me secam me segam
me condenam me absolvem
não acredito em suas palavras
suas palavras me confortam, disse minha mãe
à minha tia Sara
uma palavra de sua boca
e não me sentirei só nem derrotada
o abismo para o abismo
não são só palavras
palavras o vento leva
-- tornado que tonteia –
fusão de palavras – vulcão em erupção
neologismos – terremoto na escala literária
palavras -- tufão maremoto avalanche
vendaval tempestade escrituras
oxítonas paroxítonas proparoxítonas
átonas tônicas
falar é fácil, difícil é escrever
busco dicionários-bússolas
-- quero rotas certas --
em todas as línguas cores formas
gêneros números e graus
erradas chulas (im)puras, castas
línguas mortas, letras mudas
em prosa ou em verso
odisseia epopeias haicais
códigos ou sinais
libra, língua de sinais
de todas as nações e tribos
esperanto – língua dos anjos?

palavras
socorram-me
falta-me fôlego
e paciência
ao leitor da gente

desafio suas palavras covardes
num duelo
com a força
de minhas palavras
tenho costas-quentes
e tenho dito

sexta-feira, 20 de março de 2009

and so this is christmas
meu pai morreu
minha cachorra morreu
me roubaram a gata siamesa
namorado foi embora
outro ainda não veio
filhos pálidos, meio perdidos
não ganhei presentes
sequer cartão
vou passar a noite só
de preferência dormindo
lá fora – avisto da janela
chuvinha enjoada
que não pára que não pára
esqueci meu guarda-chuva onde?
em qualquer curva
do gráfico de minha loucura
and so this is christmas

azevinho



    véspera de natal
    sapatinho na janela
    cheio de solidão

        papai noel
          natal
       é um saco!

quinta-feira, 19 de março de 2009

grandezas do universo

navego guiada ao acaso
sem ampulhetas relógios pêndulos
medidores do tempo globo zodíaco
bússola astrolábio

procurando seus lábios

terça-feira, 17 de março de 2009

por falar em saudade
    cadê o sal?
ele estava aqui

segunda-feira, 16 de março de 2009

sua fortuna

cumprimentar guardas de banco
com aceno de cabeça
tomar vinho tinto
durante a macarronada
não ser maledicente
perdoar tudo e todos
dar graças
pelas desgraças e por dar graças
nunca esquecer aperto de mão
ser engraçada
é parte que me coube
da herança de meu pai

domingo, 15 de março de 2009

ai, eva
que saudades tenho
do paraíso, menina

de nossa inocência angelical

sábado, 14 de março de 2009

mauricinha

ser econômica
me desgasta

prefiro cascão
ser eco mônica
ser bestinha
gastar em revistinha
falar elado
escrever alada
e ser maga
ali

sexta-feira, 13 de março de 2009

estranho pousar
com roupa

para a mulher-mosca
o meu caso
posar nua
é sopa

quinta-feira, 12 de março de 2009

me passando em revista

eu tão cheia de pudor
vendo estas revistas
infames

e as seguirei vendendo
tenho entregue meu corpo
ao jornaleiro
de manhã, religiosamente
nesse haraquiri
pornográfico

nem a noite banca

quarta-feira, 11 de março de 2009

nem felina, nem ferina

esconder as garras
te olhar de frente
poesia no coldre
-- calma fera –
é meu poder
de fogo
bala de festim
é arma
do negócio

terça-feira, 10 de março de 2009

tirando o véu

na verdade
cada poema escrito
é oração
silenciosa

portanto, quando oro digo assim:
(ajoelhada, mãos postas, olhos fechados)
pai nosso que estais no céu
concedei-me a graça
de escrever poemas
tantos poemas quantos são os seres vivos
da terra do mar e do céu
pra que eu possa me redimir
amém
      ele pisou legal
   aqui meus cornos
 não me deixam mentir

segunda-feira, 9 de março de 2009

imenso castelo habito
mormaço, teias e breu
abro a janela, medito
que raio de rainha sou eu?

jurássica

quando estou naqueles dias
é brabo deixar de escrever cartas
pode der fatal

nos meus dias jurássicos
toda pedra no caminho
é enorme dinossauro
toda corda bamba
serpente
pra me enfocar
me devolver
ao remetente

toda lembrança
de seu beijo
tábua
de salvação

domingo, 8 de março de 2009

alma lavada

amor
vulcão
cuspindo fogo
dentro da gente

às vezes
meu coração o ignora
cobre de gelo
noutras, decreta
calamidade pública
                                     um mundo de dor
                                     tempo da flor florir
                                   floresce mesmo assim
                                                              issa

sonho dourado
ramos de azevinho
falsa-vinha, gerânios brancos
cheiro natural de eucaliptos
gota sublingual antidepressão
filho dizendo coisas ininteligíveis enquanto dorme
intrigante não escrever poemas, nem cartas
pessoas ainda são assassinadas nas ruas de mônaco
tia falando cardo knoll
cacos de espelhos espalhados pelo chão
prefiro miolos de pão

tomara o mundo acabe em travesseiro
vou morrer sonhando
não deixo pistas

sábado, 7 de março de 2009

eu tinha medo dele, sim
todo o olimpo não tremia
quando zeus franzia o cenho?

20 de novembro de 1995

perdi meu pai
perdi meu pai, cara
ai, amigo, perdi meu velho
lágrimas aos borbotões

pessoas falam comigo
como se eu tivesse perdido
bolsa, documentos

sexta-feira, 6 de março de 2009

chinelo na mão

não foram eles, mamãe
que roubaram
o colar de lágrimas
de nosso pescoço?

não eram as lágrimas, mãezinha
que denunciavam
estávamos todos vivos
mesmo no tempo
das vacas gordas?

não queria falar, mammy
mas não queria ao redor de nós
este colar
de olhos

quinta-feira, 5 de março de 2009

desespero

escreverei o poema
alguém jamais o escreveu

quero ver o sol
estrebuchando
no meu quintal
numa overdose
     de luz

descre ver o espanto
       no rosto
      de deus
não avisto nada
tudo calmo por aqui
só meu pânico
se arrasta
dentro de mim

quarta-feira, 4 de março de 2009

fiapos de nuvens

ele andando em círculos
encosto a cabeça no seu peito
grito humano, profundo
sua voz não diz
névoa em seus olhos
lágrima nos poros

não sei ainda por quanto tempo
nem me é dado saber
ele junto de mim
bruma se desfaça
lentamente sinta meus lábios
soprando a fumaça

voa, tristeza
para longe para longe para longe

terça-feira, 3 de março de 2009

Carlos Emílio Faraco

.
@carlosemilio @JuracyRibeiro - uau! Pura poesia reta!!!! Adorei seu blog!!!

Carlos Emílio Faraco, professor de língua e literatura, gramático, coautor de vários livros - no twitter em 4/set/2010.
P.S.: Antes de me conhecer por escritora/poetisa bebia e bebo muito em suas fontes murmurantes.

aleluia

lápide de granito
deixo minhas asas
saio voando

Márcio Almeida

Belo Horizonte, 29 de fevereiro de 1988.


"Sua força está na síntese, ou no discursivo, quando você se questiona mulher, ser humano.
Em tudo, o gostoso de conhecê-la mais de perto através de sua palavra."

Márcio Almeida, (Oliveira/MG). Professor universitário, poeta, crítico literário de raridades e jornalista.

http://www.germinaliteratura.com.br/marcio_almeida.htm
http://www.antoniomiranda.com.br/Iberoamerica/brasil/marcio_almeida2.html

Fábio Ramos

Fábio Ramos disse...

Jura
Está lindo teu blogue!
Profissional é outra coisa...

beijo!

Fábio Ramos, em 16/09/2010, joseense, escritor, jornalista, fotógrafo, autor do blogue FOTOCINESIA - FR http://fotocinesia.blogspot.com/  Confira!

segunda-feira, 2 de março de 2009

cícero de corpo e alma

     a terra é azul
alma de cícero, azul
  fluida, transparente
    todo mundo vê
pasmem — é plasma

alma de cícero,  maçã-do-amor
cabe na palma de minha mão
    da sua, do infinito
           calma
         tem calda

  corpo de cícero
 belo puro gostoso
  algodão-doce
 derrete na boca

   alma de cícero
       pipoca
dentro de minh'alma

midas das formigas

não sei se mereço
carinho de você

parte de você
toda nuvem de ternura
gentileza procurada
só em você encontrada

voltará pra você
toda doçura
você se tornará
mais e mais doce
-- se eu fosse assim
quem me dera, ai, antes fosse...

só você é doce
meigura açúcar mel
linda partitura

tudo que você toca
vira doce

Rubens Eduardo Ferreira Frias

São José do Rio Preto, 1o. de novembro 2000.

Dileta Juracy,

Alegro-me por receber notícias suas e por suas decisões.
(...) Quanto ao vestibular da Fuvest, ou qualquer outro, é preciso empenhar-se.
Gostaria de que você concluísse o curso de Letras ou algum outro de nível superior, ao menos para ter direito à prisão especial.

São José do Rio Preto, 29 de novembro 2000.Júrame en el cielo,

Você não responde, mas se corresponde através de ótimos textos, tirados del forno com a patinha de gata. (...)
Ainda hei de receber algum lindíssimo poema de alguma das Juracys que habitam o mistério del Elio, del Chiaro, del Sol.

(obs. eu morava na rua Elio Del Chiaro)


São José do Rio Preto, 5 de outubro 2000.
Dileta Juracy,

Recebi com alegria os recortes. Ficaria ainda mais feliz se você me enviasse alguns poemas, sem dúvida, o melhor dessa feérica J.R.
Acabou de chegar também uma carta de nosso bom e produtivo amigo MÁRCIO ALMEIDA.Uma beleza restabelecer um intercâmbio iniciado por seu intermédio.
(...) Estive aí apenas uma vez, como informei, mas não recebi nenhum telefonema dessa amiga meio ursa.
Você havia começado a estudiar español. Qué pasó? Você ainda continua a manter interesse pelo castelhano ou o toureiro já regressou a Madrid?
(...)
Espero que continue a progredir na literatura e na vida, se possível com uma pitada de bom senso, além da indispensável imaginação e do inegável talento.

Rubens Eduardo Ferreira Frias. Prof. Dr, leciona Literatura Hispano-americana e Literatura Espanhola, no Depto. de Letras Modernas da Unesp, de São José do Rio Preto.

Currículo de Rubens Eduardo Ferreira Frias no Sistema de Currículo Lattes



Lau Siqueira

Mas, escrever poemas é sempre uma grande jardinagem, não é mesmo? Vivemos separando as sementes, para depois misturá-las com terra, água e palavras. Por isso nunca temos um único olhar sobre o mesmo poema. As flores nunca são as mesmas, nunca tem o mesmo cheiro, as mesmas cores... Porque na composição do olhar poético de um jardineiro existe, também, uma composição de pássaros, de ventos, de flores imaginárias e espinhos... Talvez seja na botânica que você aprendeu que a poesia precisa ser simples. Ser simples não é fácil. na verdade é muito complexo. Caso contrário teríamos um Manuel Bandeira por quarteirão. Um bacio!

Lau Siqueira, poeta, em recado no orkut 26/11/2009.
Visite http://poesia-sim-poesia.blogspot.com/

domingo, 1 de março de 2009

vidros e vidraças revisitado

olho passarinho
sorrio pra minha foto
eu, criança ainda

autocompadecida
quero me maquiar
vestir em mim roupa sóbria
fazer de conta
essas contas
são colar de pérolas
pra me enfeitar toda
enfeitiçar
coisa e tal
fazer cara inteligente
depois voltar ao normal

não, não me permito
não devo me fotografar de novo
afinal de contas
inocência daquelas janelas
foi quebrada
-- pedras de atiradeira –
não há mais mitos
nem restam cacos
só eu mesma
estranha no ninho
olha o passarinho...

Zenilda Lua e Valéria Tarelho

4 comentários: no dia de meu aniversário, aos 52,

Zenilda Lua disse...

Jura!
Você é um objeto interessante de estudo. Abençoado seja o seu trono, suas resmas de papel-poema, tua experiência e luz. Teus acenos, propostas e futuro.
Sou doida de pedra por tudo que você toca.
Feliz queima de tempo viu?
Feliz dia.
Feliz de quem tem teus cafunés.

Jogue um sorriso aí pr'eu transformar em flô Mulhé!!!
amo-te de lonjura infinda.

bj'Z

15 de outubro de 2010 09:42

Juracy Ribeiro disse...

Vou te jogar não só um sorriso e flor, mas imodestamente, vou te eternizar na minha Biografia.
Te amo pra valer, Zê.
Maravilhosa e radiante, Zenilda Lua.

Da sua,
Jura.


15 de outubro de 2010 12:07

valéria tarelho disse...

Jura, o dia é seu, mas o presente é meu e de todos os privilegiados em sabê-la [mais que conhecê-la].
Zenilda foi inspiradíssima nas palavras, assino em baixo.

Beijo de quem te adora, admira, ad infinitum...

V

15 de outubro de 2010 17:56

Juracy Ribeiro disse...

Vocês só me fazem chorar. Isso é bonito?
Eu tô que tô hoje, crioncinha.
Ninguém espera mais afoita pelos seus poemas do que eu.
Você já é minha sagrada musa.

Beijos, te adoro também.

Jura (fora de) cy

Zenilda Lua, amada poeta de São José dos Campos. Já é nossa por usucapião.
Visite o blog da Zê
http://zenildalua-alfazema.blogspot.com/


Valéria Tarelho, poeta mimadíssima por onde passa desfilando palavras. Rebolando, também.
Visite o blog da Val
http://valeriatarelho.blogspot.com/
Obs; Não se detenha muito no blog dessas mulheres da (minha) Vida. Sou ciumenta delas.

Réginaldo Poeta Gomes

Beleza, garota, tu tá na ativa, heim? Ganhaste fôlego novo?

Que bom! Gente do teu nível dá até vontade de guardar num cenário bem lindo!

Réginaldo Poeta Gomes, 8 de janeiro de 2010.

http://reginaldopoeta.blogspot.com/
http://rpgmarketingpoetico.blogspot.com/