quinta-feira, 30 de abril de 2009

oleandro branco

vizinha (,) espirradeira
não faz mal
planto flor
em meu jardim
ela floresce
em seu quintal

terça-feira, 28 de abril de 2009

(des)crente

aflita
querendo ser cidadã do mundo
tonta
querendo isto, aquilo
vendo bichos em extinção
inerte

enquanto houver matança
fome e tortura no mundo
só à poesia me submeto
só a poesia me converte

benfazeja

poemas caem do céu
alegria em pingos
brotando na terra
o vinde

no coração
brotando desejos ocultos
de viver uma vida
fulgurante
geada
homens dormindo
na calçada

dentro das casas
homens frios

pureza pura

eu o chamava de anjo
ele já era
na verdade
sou mais velha que você
do alto de minha loucura
te dou meu colo
calor

passo noites em claro
penso em te abandonar por aí
como já fiz
com meus cães
e cadelas

acumulo débitos
remorsos

teu sorriso

banho de alegria
se tua vida é tão boa
vamos, me convida
me ensaboa
olhando teu retrato
beijo teu rosto
a 3X4

pescoço de cisne

não é mentira
patinho feio
virá cisne
meu amor é livro
sacramentado
ilustrado
ilustre
festa
só enquanto
fogo está aceso

depois
resta só
a menina
mulher de verdade
quer homem inteiro

esta mulher
se divide
por sua metade
de verdade

ora-pro-nobis

primavera-de-espinho
esbarrei nela
me esqueci
em plena primavera
se
quando
voltar pro seu ninho

solte-se
devagarinho
depois de seu carnaval
rodei
a baiana
tigre no chinês
não te quero meu
te quero seu
nunca mais direi
eu te...
quase
fumaça do cigarro
cobriu meu rosto
meus olhos pediram
pare de fumar

nunca mais
não me julgue
capaz de te fazer
algum mal

não me julgue
capaz
de nada
seus cabelos grisalhos
compreendem
a alma do mundo
nunca fui lá essas coisas
nem sei se fui boa filha
sempre uma pilha
de nervos
jane
sem cipó
salto
a salvo

corbeille

deposito flor
no túmulo
do amor desconhecido

a flor nem nasceu
e já morreu

como este amor
que nem
quando ele vier
uva, videira
recíproca
verdadeira
aterrisse
sem paraquedas
nos meus braços
sobressalentes

jogue-se no mar
salve-se quem puder
ou me dá seu endereço

lareira

venha dormir
e não durma
com marulho desses

manequim

na vitrine
torcendo
pra que arrombador maluco
a descubra
desnuda
a refaça
de mil pedaços

sutil, decerto

há quanto tempo
você fala de você
querendo ser tudo
menos
grito

copo na mão

nada
vezes
nada

nada X tudo

tudo
todas as vezes
verdades inteiras
me derrubam
meia dúzia de palavras
me levam
enlevam

o trem apita

eu, de frente
na pista
querendo me atirar
nas paralelas

os braços abertos
do maquinista

tremendos

avisto três colinas

monte sião
a alma dolorida

monte das oliveiras
ali jesus chorou

monte do calvário
onde seu sangue verteu

maria madalena
enxugou os pés de jesus

como eram os pés de jesus?
e suas mãos?

jesus lia as mãos
de maria madalena

mútuo

deus é bom pai
rouxinóis de outono
torvelinhos de areia
leque japonês, nobre
passeio em damasco
relíquias de faraós
choupana, fartura
trança nos cabelos
indulto de natal

às vezes sirvo
em desespero visível
a dois senhores

eu sabia

meu coração
maluco
cumpre a missão
de me proteger

quer se doar
pobre caduco
me despe
ao seu olhar

solução

também
na cova dos leões
fui lançada

disse a eles
essa lua
esse conhaque
me deixam comovida

por deus
os leões
adormeceram

sábado, 25 de abril de 2009

vide capa

fui retratada pelo amigo
essa mulher da capa
não se parece comigo?

é o meu perfil
e só o amigo viu
essa mulher sofrida
que não esboça sorriso
a quem passa pela sua vidraça
e já não consegue contar nos dedos
todos os seus medos
retraída, a tudo observa
sendo observada
é a vidraça, é a vidraça
sim, essa mulher sou a vidraça

às vezes bendigo esse perfil
outras, ignoro
não, não, eu o adoro
o amigo assim me vê
a outro qualquer
essa imagem escapa
não se parece comigo
essa mulher?

dê uma olhada na capa...

quinta-feira, 23 de abril de 2009

o coração sempre fala
do que enche
a boca

amo
do coração
pra fora
tirar palavras
da ponta da língua

lançar mão
das que [me] travam
no fundo da garganta

hotel marriot

tantas roupas tem
manneken pis
apronta
uma dessas

mini-roseiras

tenho feito
minha parte
cultivando flores
bons pensares

i beg you

não vá
a bélgica é aqui
o brasil é lá
não há mares
só luares
neste vidros e vidraças
telhados de vidro
duvido

vidraça
estilingue
xingue

vidro
de água e sal
cristal

copo americano



um brinde ao brando

assim seja

sejam
primas
as rimas
vicejam

no rio
de minhalma
calma
no frio

oro
choro
e deito

no leito
frio
do rio

transparência

libélula rubra
asas transparentes
medula da libélula

libélula libra
ama a lula
bajula a lua
libélula lilás

libélula linda
não adula
voa, pula
medo da libélula

morangotango

você, cereja
melaço
me enlaço
eu, morango
sem chantili
orangotango
tolo, vulgar
nadando no seu
marasquino

indiferença

tanta mágoa nos olhos
olhos cheios de copos dágua
fonte cristalina
quem bebe dessa água
outras mágoas, outras águas
transparentes

mãos, água entre os dedos
olhos cheios de sal
água gasosa, mineral
quente ou fria
cachoeira fina
pequenina
menina dos olhos
gelada

violentadas

violetas róseas, brancas, mescladas
eram muito gentis. de tão amadas
em pequenos vasos ou mesmo no chão
floresciam na primavera, outono e verão

tratadas com carinho, cada vez mais lindas
eram tudo o que eu queria. tristezas infindas
esquecidas por dias, meses. momentos
em que não podia haver mais tormentos

sem que esperasse vi as violetas
desbotadas, tristes, sofrendo. choravam
em suas efêmeras existências. as auras pretas

o sol surgira subitamente no céu
enquanto as violetas indefesas se inclinavam
meus poemas floresciam em folhas de papel

sereia

grão de areia
oceano de sensações
andando pela praia
consegue definir
novas reações
suaves sensações
esperando a cada dia
mel no sal
no mar
suavíssimo canto
roçar de olhos

abalo

vamos tremendo
de medo tudo treme
o que não treme, geme

o germe geme
como verme vê-me
mulher possuída geme
pisada, treme

navio no cais
meu lema é o leme
minha poesia sofrida
cheia de tremas tremia
eu gemia

prédio treme
gente sob escombros
gemido, tremura
voz sem eco geme
mão atada treme

à prova dágua

ai, o tanque transborda
é noite, transborda o bebê
o tanque geme e a mãe chora
o bebê geme numa mãe que transborda
o tanque chora e a mãe geme
se o tanque transborda
águas turvas descem
se esparramam, ganham o chão
passam pelos ombros, dedos
cantando, molhadas
no tejo que o tanque transborda
na enxurrada de fraldas brancas
sonhos lentos, belos
a mãe chora na fonte
que o tanque transborda
espuma sobe, molha o rosto
olhos transbordam
transbordam braços e beijos
a chama doce e preta do fogão
é labareda que chama, acorda
a mamadeira derretida
ai, o coração derretido
transbordado em gotas
mãos queimadas, queimadas
estão fritas as pomadas
outro bebê a bordo transborda
o leite se derrama no fogo
meu leite é catarata
na boca faminta é chuvarada
a boca desgasta, transborda
mais um bebê gritando, meu deus
e o tanque é regato
quando vira ribeirão
as mães transbordamos

para-quedas

cores vivas
embaraçando
a visão

maré no céu
prazer
nessas cores

abriga sonhos
meus heróis
me abrigam do perigo

aberto
meus olhos
ficam coloridos

no chão
guarda-chuva preto
furta-cor

s.o.s

nem neiva sabia
da seiva na veia
nevava
quando a névoa
cobria a nave
em que navegavam
retinas

vá, nei
neiva na neblina
não vê

rua humaitá

chega de cartas
de baralho barulho
eu via seu sofrimento
minha dor eu via
doía até mais
que dois ou três cigarros
de teu maço o sol ardia teu umbigo
no mormaço eu via gente correndo
pro terraço rádio de pilhas ligado
favela próxima à avenida
trouxa de roupas sujas
era eu essa trouxa

só porque alguém tocou meu ombro
quando passei pela humaitá
como se fosse uma rua qualquer
de maringá
rival veleiro
feito velho vinho vem de tonéis verdes
fazendo viúva uivar
vizinha voar

cascavel suave jasmim
jogando o guizo
jorra sobre meu joelho vil
nem juiz, nem raiz
jangada cavalgante
zangão zombeteiro
fazendo zunzum
no meu ouvido

lendo poemas

se leio drummond de andrade
minto minha idade
entre blush e batom
prefiro rosas rosas
mas eu leio drummond

se leio cassiano ricardo
penso que ainda ardo
mas não tornemos isso público
é publicoso
quando você fala a sério
o riso me intimida
se fala satirizando
me comovo

se leio cora coralina
lembro que tive outra menina
a sua simpatia foi excelente
meu leite secou de repente
outro leite mina
dos meus olhos
da menina

abrindo o jogo

não era desamor
era só cansaço, eu era bagaço
não mereci nem um abraço

havia folia dentro de mim
gente chegando tarde, fazendo alarde
gente que arde

muitos querubins dentro de mim
falando em desejos, dando beijos
anjos sem pejos

você não viu essa malícia
no lençol da cama chamando à trama
eu era dominó, xadrez, dama

reflexo

você segue assim
tonto assim
nem se dando conta
de que flutua
em rios, lagos, mares
buscando cascatas
ribeirões, cataratas
flutuando num oceano

sigo assim
tonta assim
navegando em tantas águas menores
jangadas, as mais singelas
conversando com plantas
ribeirinhas
pobrezinhas
vendo minha face refletida
nas águas de leito plano
no reflexo o sonho
de nadar, me afogar
no seu oceano

última página

olhos carmim
tão tristes, sérios
não entendo seus mistérios
por que chovem assim?

chuva no meu rosto
aperto no coração magoado
choro não chorado
testemunham meu desgosto

ando farta de amargura
tristeza – nada me resta
senão a dor, que me molesta
talvez de minha desventura

minha mão já ferida
tem súbito desejo agora
de virar a página, sem demora
a página de minha vida

meninas e tangerinas

flor da laranjeira. limoeiro
macieira carregada de maçãs.
bananas em festa. coqueiro
meninada. primeiras romãs

nas árvores em que brincavam
meninas verdes, tangerinas maduras
subiam, desciam, pulavam
as meninas verdes eram puras

perto do rio de água corrente
a tangerineira tão gentil implora
reclama muito saudosa. sente

falta de risadas das meninas escuras
tangerinas estão verdes agora
as meninas, muito maduras

máscaras

você reluz
qualquer dia desses
dou à luz
sou sua, sou sua
minhas mãos numa cruz

nas minhas chácaras
muitas máscaras
suas xícaras
entornadas
me chocam

ninguém me seduz
champanhes e chás
entornados
nos meus seios
me checam

etapas

sorria
na folia
do dia

chora
na flora
implora

viva
esquiva
arquiva

morra
escorra
masmorra

ao fogo brando

me pediram poesia doce
geléia de morango
meus frutos estavam verdes

quando maduros, sazonados
fiz doces todos rimados
cocadas, beijinhos, brigadeiros
de versos polpudos, frescos
frutos partidos ou inteiros

rimas artesanais
feitas de doces banais
beijinho de pé quebrado
como caroços ficavam de lado

me surpreendi com cestos diversos
oferecendo doces como quem compõe versos
rimas que não enjoam
doces que não engordam
-- poema não pode ser amargo –
todo mundo ria
ninguém, ninguém queria
minha doce poesia
em banho-maria

bem-querer

quero espelho generoso, não aflito
sem laços, culpas, medos. espelho bonito
sem ansiedade, moral de história
não penso em derrota, nem busco vitória

meu passado de nuvens seja o presente
ninguém venha me dizer: demente
pisarei todos os cacos que me consomem
hoje quero amar esse homem

rodopiando feliz com os braços no ar
vou me imaginar ao som de guarânia ou valsa
cantando baixinho canção que não é falsa

vivendo intensamente o êxtase de amar
quebro o espelho que nunca anima, só tortura:
ambos não somos o que o espelho procura

besos de maçãs

danço tango longo
com esse amigo fanático
que nunca me beija a contento
nos perdemos num tango lento

mordo maçã vermelha
maçã de besos, besos, besos
me lembrando meus avessos
e são apenas começos

tecendo saias e sonhos

na cor anil
bolas, listras
orquídeas no azul
pontos sem til
contos sem fim
agulhas, há mar
nunca naufragar
nos papéis
retrós, carretéis
poucas papoulas
roucas
alguém viu
clodovil

vidros e vidraças

a érico veríssimo


se o escuro chega perto
o mundo é um deserto
sala iluminada
chuva na calçada
nós somos deserto
estremece o que não se esquece
sobrado edificamos
edificamos o frio
anjos petrificando
o vermelho da brisa
horas estatuadas
demônios tão visíveis
o marrom do cobertor
aquecendo a música
gelando nossos pés

por nossa cabeça
rompiam-se fantasmas
tormentos eram dourados
tanta fé nos arrepios
homens tardios
passeiam no teto vazio
velamos vultos apodrecidos
estremecendo paralisados
paralisando estremecidos
voltando a si
choram, entram no quarto
entram na cena, gemem
medo nas vidraças
vidros temerosos
das lembranças futuras
cruéis, duras

garis

meninos-laranjas
vieram garizando desde
o centro da cidade
em frente ao meu portão
pediram água gelada
em lugar de boa limonada

com que rapidez varriam ruas
com que lentidão bebiam água
iam varrendo todos os detritos
a lama bebendo minha cidade
varrendo a água do copo
de gole em gole
esfregando piaçavas
precisando sorver toda a cidade
o país inteiro
varrer todo o globo terrestre
e eu querendo varrer
os suores de seus rostos

suores de meu rosto

ronda

de blusa semiaberta
vejo número da polícia
acaso precisasse

essa minha malícia

quadros no aquário

num quadro filho e cachorro
o pai mostra sua raça
eu, senhora cachorro no zodíaco oriental
babando tanto no ocidental

peixinho beijador
me beijando, beijando
minha cabeça girando, girando
voltando aos pouquinhos
ai, agora os peixinhos
pendurados na parede
perto do armário
os quadros, boiando
dentro do aquário

sinal da luz

jazíamos fartos de jazz e paixão
eu te mandava flores
e recebia caramelos
belas balas
era extremo o seu amor
uma bala atravessou meus quadris
outra, minhas têmporas
eu mal me sustentava nas pernas
você passou primeiro
e fechou a porta
duas gotas na porta da matriz
a gota dágua era da fonte luminosa
a outra, estava por transbordar

descalços

sem pás, pós, paz
no lodo nossos pés
lado a lado no lodo
os dedos duas vezes dez
assim deslizam os pés
os meus vão primeiro
de encontro ao bueiro
na enxurrada

nossos pés
antes tão amantes
nunca derrapantes
de repente
nossos pés
na água salobra

colhendo beijinhos

beijos me sacodem
quando maduras
as sementes explodem

poda

ouvido ouve
lagarta
no pé de couve

filha voa
borboleta
na taboa

olhar brilha
outro reprime
a filha

ninguém louve
lagarta
no pé de couve

bajulação

chega de mansinho
não quer nada
apanha docinho
de milho verde ou castanha-do-pará
não sei o que se passa
pega uva-passa

diz que sou doce
me amaria mesmo se não fosse

outra vez pego você em flagrante
roubando biscoitinho, um beijinho, até
isso nunca é o bastante
vai acabar com déficit na hora do café
quem tem faca e queijo na mão
querendo biscoitinho de parmesão

um dia saio desse fogão
pra aquecer seu coração

espere o creme ficar pronto
tire as mãos daí, meu deus
não gosto desse seu modo tonto
pare de lamber os dedos. os meus!
o creme não compensa

desfaço laço
no seu abraço

pesadelo

te beijo
você beija outra mulher
cabelos longos
pele clara
margarida ou guida?
nos braços dela, preso
enquanto te vejo
dormindo
indefeso

marcas subterrôneas

espeleólogo
tem no capacete
iluminação de carbureto
nem viu meu humor
de cianureto

me promete gipsita
cabelo-de-anjo
a mais rara e bonita

sua estalactite
em confronto com
minha estalagmite

depois vai embora
deixa pegadas
na caverna de meu coração
feito as de um leão

segredo

palma de sua mão
na minha palma,as linhas
na sua mão minha alma dobrada
cauda fina de lagartixa
mexendo entre seus dedos

na correnteza

onde navegas? onde navegas?
em qual regato de águas mansas
onde navegam crianças
em barquinhos pequenos
ai, quantos acenos
até meus pés desejam se afogar?

em qual rio de águas turvas
tortuoso, se escondendo mata adentro
com plantinhas verdes
que rapidamente desaparecem
e minhas mãos não conseguem segurar?

tenho navegado, sim, tenho navegado
em oceanos de águas turbulentas
caudalosas
majestosas, violentas
com ondas vultosas
escandalosas
tão azuis que os azuis de meus olhos
não podem avistar
e meu navio está prestes
a naufragar

temporã

te busco hoje se ainda
amigos somos
tomo suas mãos
apertando até sangrar
vendo meus lábios
vermelhos desses gomos

cultivo no peito
fruta silvestre
rompendo em brotos
planta agreste

paixão lúdica

não atinava esse meu destino
pensava: era sina de menino
pipa no céu, pião, bilboquê
eu até brincava com você

mas o amor que nos emaranha
amor – coisa mais estranha
me pôs sonambulando aos sóis da vida
teia de lágrimas, eu só envolvida

com surpresa, sem beleza
era o fim da realeza
não há nada, não há nada

meu corpo como que num cemitério
seu pião, pipa eram algo sério
não há nada, não há nada

capas & caras

capa de couro
cara de cristão
anel de ouro
gesto de irmão

capa de chuva
cara lambida
adoro luva
adoro bebida

capa plástica
cara de artista
mão elástica:
é dentista

capa de pelica
cara de pelanca
unha que belisca
olho que põe panca

descuido

mal te vi
pintou em meu ventre
bem-te-vi

fios tensos
carregados
de sonhos meus
suspensos

rio amazonas

nenúfares.
vitórias-régias.
pescadores.

rio caudaloso.
tormenta.
embate das águas.

nenúfares.
vitórias-régias.

toda ouvidos

ouço meninas
nas campinas
ouço grilos
nunca tranquilos

tudo ouço
caçamba no poço
ai matinal
no hospital

de súbito ouço
acelerar
meu coração

moço
palpitar
de emoção

soneto de nossas mãos

quando me invade a amplidão
recosto a cabeça em seu ombro
suas mãos procuram as minhas, sem assombro
se embrenham em meus cabelos. então

como duas rolas minhas mãos lobas
procuram no ato seus cabelos
nossas mãos tornam-se dois novelos
nos tocamos a quatro mãos. bobas

com toda ternura no leito
minhas mãos procuram sem pudor
suas mãos, seu peito, seus cabelos

depois suas mãos procuram meu peito
e os dois encontramos cheios de amor
nossas mãos, cabelos, peitos e pelos

mancha negra

dizia: não me desmancha
me pedia água e não tinha sede
você me alertava do perigo da mancha
perigo era a mancha na parede

contágio

se há algo que não se atura
é ver fechada uma porta
se nada neste mundo dura
de resto, que me importa?
toda jura pode ser pura
meu coração a todos comporta
por que me chama de inocente?
agora já sou gente

me dá sua língua
tenho meu lado patético
mas minha alma míngua
seu jeito estético
me faz mal, minha voz finda
sensual seu corpo atlético
não duvide de meu dom artístico
não deboche de meu senso místico

me chama de menina
me contamina

grafite sem limite

pixaram o muro
o orgasmo é uma boa
fico pensando à-toa
numa canoa furada
no meio da lagoa
quanta gente
parada

morcego

vem consumido
me consome
não sei seu nome
com gosto
deixa marcas no pescoço
na calada da noite
abre asas besuntadas
me empalha

cães e gatos

gatos escaldados, vadios
não saem de nossos telhados
estão miando... ai, miados macios
nos roubam o sono. nós acordados

tantos gatos engatinhando
em telhas novas ou velhos telhados
de um salto no muro, miando
encontram outros miados

gatinhos não cometem enganos
são mimis, filhotinhos pacatos
quando ficarem velhos bichanos
ouvirão alguns desacatos

oh, somos dois gatinhos
vivendo sob velhos telhados
à procura de nossos caminhos
vamos latindo ouvindo miados

mao faz bem

mao pensava na morte
não fazia drama
hoje mao dorme
na cabeceira
de minha cama

terça-feira, 21 de abril de 2009

jasmim-dos-poetas

perfume
permeia
meu ser

olhar roça
minha pele
aflorada
à flor de mim

vale ver-te vivo

nada de romance
virtual
nem que eu erre
fora desse amor
pontocom
pontobê erre

um vapor, a vida

rastro apagado
na areia
a vida não deveria
ser engrenagem
moinho

tanto para nada
e fora dos eixos
talvez caminho

espelho inca

imagem no espelho
amostra de quem sou
busca pelo olhar profundo

garganta quer calar
o silêncio
sempre
grita mais alto

nunca mais

não entendi tal sorte
sangue na avenida
suporte

a dúzia é doze

quero uma dúzia
disse bem alto
passantes ouviram
e riram

dúzia
doce
tão cheio de si
tino comercial
digo que te amo
você diz
não tenho culpa
é normal

creio nele

abaixa
alça do sutiã
só a textura...

não creio nele

tire a blusa
só quero sentir
a textura de sua pele

nada mais
eu juro

transferindo
pra mim
tatuagem
de duende e dado
de seu ombro

palmas

desenha a própria mão
e a folha outonal
flutuando nas asas do vento
vem cobrir
meu coração

como dorme este bebê

acorda, anjo
olha, se vê
não vê que você
pega você mesmo
brincando de pique?

vá catar coquinhos

desisto
depois de tanta birra
você ainda acredita
se a gente não chora
não implora

duende e fada

não digo nada
pare de me beijar

onde vai dar
esse labirinto?

vamos fazer
acordo
de cavalheiros

fale comigo
de homem pra homem

mel

colibri
volta pro teu jardim
dizendo assim
aqui é meu lugar

colibri
volta pro teu (próprio) bem
dizendo a esse alguém
no seu lugar
aqui é meu jardim

seja pequeno pássaro
imenso em perdoar
seja, sim
assim seja

via postal

cruzeiro do sol
constelação
de um mundo
sórdido

cravada em nossa bandeira
mesmo que você não queira

pena
todas as estrelas
sobre nossas ombros

risos de asas

abre asas
borboleta amada
amarela
tons claros
diante de meus olhos
satisfeitos

butterfly, todo butterfly
voa para longe, muito longe
simples borboleta
sempre

meu ben

ben, meu príncipe pleno de melodias
em seus cabelos revoltos
ben, ouça, sou toda ternura
ritmos vejo em seus dedos
distantes de mim
dedilhando o piano

ben, príncipe de luzes, doçura
o piano geme sentindo sua falta
nada é como antes
teclas solitárias, mudas

ben, acorda de teu pesadelo
revive a música
juntos compomos
sonharemos lado a lado
juntos ficaremos
para sempre, ben, suave melodia
de liberdade
em minhas mãos tua salvação
vice-versa

favor não mexer

deixou tudo
a meio termo
mãos que teciam
foram embora

lãs se entrelaçaram
fios claros nas mãos aquecidas
misturados aos verdes

desistiu de tudo
a tecelã
com certeza
voltará amanhã

canja vegetariana

este poema é canja vegetariana para um doentinho
olha o aviãozinho...


meu irmão
tua ausência esteve presente
a todo instante

acorde levante
abra os braços
saúde o sol
abrasante
curando teu couro

calma
amanhã é outro dia
com ele há criança

irmão meu
fiel amigo
te espero
te guardo
te saúdo

contigo longe do paraíso

eu pensava
que você ziguezagueava no limbo
da poesia
aquecida na luz

que dizia palavras duras
mas não havia
dureza em seu olhar

que selava seu destino
com desejos de vida autêntica
íntegra, fé em deus e fé na tábua
da Lei, pé no chão

que não dava ouvidos à voz
te sussurrando
isso eu já sabia

que o anjo em você soprava
ao meu ouvido
templo aberto às suas palavras
com aroma de liberdade e justiça

que você plantava e colhia
Beleza, Verdade
nas músicas
das esferas

que você era
agora não há mais convicção
eu pensava que você era Dimas
o bom ladrão

ele sempre tem razão

gato manhoso
esperto
vem
miando

gato mandão
vai dormir fora
no sereno
sem colo
sem calor
sem ração

filha de eduardo

rosa teu vestido
sentada em mesa esplêndida
pezinhos descalços

rosa teus sentidos
delicadas mãos
rosa-bebê
rosa shocking
rosa teu corpinho frágil
cabelos macios

rosa teu vestido
de princesa
graziella, tua beleza
põe mesa

graziella, a bela

puralegria
enfrente a vida toda
em berço-nave
coraçãozinho de ouro
reluzindo ao redor
aquecendo minha alma
afastando a dor
oferecendo a paz
cósmica

varrição

o vento bateu na árvore
varreu varreu varreu
frutos apodrecidos
flores duras
folhas secas
galhos tortos

ah quem dera em minha vida
esse vento furioso
varrendo de mim
tudo o que é seco
morto
estéril

gosta de brincar na chuva?

gosta de brincar na chuva?
não tem medo?
me preocupo
em vão

gotas escorrem dos cabelos dele
pelo rosto deslizam
bem sei: lágrimas endurecidas

gira em círculos na chuva
nem ouve
enxurradas de palavras
em forma de poesia

saidessamor

pavilhão dos olhos verdes

todo verdura
esses olhos

da esperança
transparentes
dizendo a todos
somos verdes
estamos

ficamos assim
verdolengos

quatro anos se passaram até o sol voltar a queimar sua pele

com quem amo

luzes fortes
chácara em itanhaém
bonita mulher
olha pra frente e vê
algumas cartas, escovas de dentes
tem todo o direito de viver
malditos momentos tristes
mesma direção e sentidos contrários

embaixo dos cobertores
basta! eu quero paz!
a princesa havia se tornado
uma sereia
dias foram passando
vira o rosto e vê
não sabia o que havia acontecido
com o tempo
claramente o caminho
aparece e
com o brilho de suas joias

(baseado na prosa de carlos eduardo pereira dos santos)

tesouro de asas

eduardo, asas de tesoura
cortando ares da imaginação
planando sobre oceano de dor
mergulhando em bravas ondas, bravatas
tantas palavras

eduardo, olhos de tesoura
veem so(m)bras atirando-as longe
se fazendo Homem Novo
arco e íris surpreendem
arco e mecha
treva e luz
num duelo permanente

eduardo, dedos de tesoura
tatuando na pele de cada um
por onde passa
impressão digital
marca da fera também ruge
não passa despercebido
tanto e tão é você
eduardo
alma de ternura

eudardo, coração de tesoura
coração pensante, cortante
mente cordial
cordial amante
não desfolha
pétalas da SENDA te chamando
eduardo
eduardo
eduardo

imagino

(eu e) você no banho de sol
tua solidão
me dói
sangro sem socorro

amigos para sempre
diz você (e) daí

boneca de corda

boneca
dizendo sim sim sim

à vida
esperança
poesia
ao vir-a-ser

boneca Queridinha
do papai

ceps

descansava o corpo
sem camisa
mente voando em delírios

olhei de longe
em seu braço direito
bela tatuagem

dragão?
sereia?
beija-flor?
coração flechado?

meus olhos acariciavam
tatuagem difusa
não a distinguia

estávamos longe, bem longe
a 90 km anos-luz de distância

preso pássaro

menos cartas, agora
vejo você cristal
tão fino, mas tão fino
se eu fizesse assim, olha
pra ouvir o seu som
pronto: você se quebrou

a mim

quando escrevo
poema pueril
penso na bondade
das palavras

vinde às minhas
palavrinhas

pt saudades

não chegue tarde
pode ser perigoso chegar de madrugada
existem muitos pirilampos
alguns dormindo na calçada
nao sei se minha paciência te perdoa

nao sei se te espero
tua companhia me faz falta
como água-de-colônia faz falta
sem você ouvirei passos lá fora
as pegadas no chao vão me lembrar
cão raivoso
o cão parece o vento assobiando
na minha janela
vento me faz sentir frio
frio me leva junto de você
que é meu cão raivoso

pode ir, mas não chegue tarde
cuidado com excessos
tranque aqui seu passado
pegue sua agenda na estante
pegue um pouco de vergonha

novos brilhos

hoje queria mudar meu rumo
meu tom de voz agora é manso
não sei se rima com descanso

hoje não vou sacudir meus filhos
por favor, andem só nos trilhos
meus olhos estão cheios de brilhos

preciso mudar meu rumo
tocar suas mãos, oferecer as minhas
suas mãos são ervas-doces, as minhas, daninhas

ah, se me chamasse rosa
eu seria muito carinhosa
hoje eu queria me chamar rosa
se é pra falar em anjo
vou falar em laura
sim surpresa
ternura beleza
encanto de estrela
vaidosa coisa e tal
alegria em conhecê-la

o que conta

tua graça
charme
toda carinho

teu sorriso
em forma de coração

pura magia
laura contagia

segunda-feira, 20 de abril de 2009

vibrações

abro chuveiro
meus olhos jorram
fico horas a fio
procurando a água
encontro só angústia
banhando
poros fechados

banheiras vibratórias
me convidam
não resisto
fecho o chuveiro
secando olhos
acariciando, sentindo
toalha felpuda, morna
me aliviando
tensões, tendões
quando saio
do sonho de espuma

ansiedade

se me alimento
do néctar das dores
não vejo remédio
pro tédio
das flores

leio num instante
todos os livros
da estante
amado, drummond, bilac
depois
triac

a alma flutua

a alma é sublime e danço congo
para a poesia que flui como pluma
depois a sopro – tudo espuma
eu sonho longo

a alma é serena e embargo
tristezas brindando alegrias
afogando mágoas que povoam meus dias
eu sonho largo

a alma é nobre e mordo
versos, reversos com fome voraz
degustando todos de forma loquaz
eu sonho gordo

a alma é bela e se expande
esse mundo – a quem pode atrair?
sei que serei nada quando partir
eu sonho grande

biografia de juracy ribeiro

pedi pra nascer no dia 15/10/58 em maringá, paraná e herdei o nome do primeiro maringaense. nome dúbio me hermafroditou com o pó de maringá deixando poros e cérebro impregnados e passei a ver tudo roxo-avermelhado.

multimilionária, tenho diamante sendo lapidado, ágata-elisa, alice-aliança e rubi-rubem. também dentro do peito, água-marina. tenho lápis-lázuli cravejado de grafites brilhantes. furta-cores, porém.

meu nome vem do tupi, yura (concha) + cy (mãe), ou seja, mãe das ostras. sou ostra buscando ser mãe das pérolas. rude, colar cheio de palavras tontas. rolem as contas.

domingo, 19 de abril de 2009

ah laura
estivesse eu aí
ao teu lado agora
te pegaria no colo
te contaria
contos mágicos
ou apenas uma história
de menina conversando
com sua boneca
depois
eu, muito confusa
diante de tua soneca
já não saberia mais
quem é a menina
quem é a boneca

close de laura

flores na blusa
flores nos cabelos
cabelos lisos, macios
sorriso fazendo ouvir
alguém dizendo:
agora é minha vez
no coraçãozinho
grande coração
ela diz a que veio
abram alas

blossom

vida brotando
por encanto
flores desabrochando
em blusas, cabelos
enfeitando a vida

suavidade
tão suave é você, menina
muitos frutos virão
-- também doçura natural –
para a felicidade
de você, seu pai

botão em flor
razão de tanta esperança

menina-jardim

princesa do rio
usa tiara de flores
toda perfume
seu destino
está selado
nas torres dos castelos claros
onde princesas feito você
nunca estão em perigo
só ao calor do abrigo
da luz de deus

flores e pólen nos cabelos

papai, me apresente laura
já conheço
anjo de candura
usa roupas de flores de luz
tem sorriso de doçura
olhar inocente
sem querer
cativa a gente

laura, órfã de mãe

não pode ser órfã
uma criança
com a mãe presente
apesar da ausência física

mãe que arruma
a roupa da filha para sair
acaricia os cabelos claros
com ternura
dá bronca
se ela se atrasa

Cachinhos de Ouro - Juracy Ribeiro - Editora Brasiliense

Sr. Editor,

Vi o regulamento de um Concurso de Contos Eróticos promovido por essa editora e, respeitosamente, dirijo-me ao senhor para fazer algumas considerações e sugerir uma mudança no tema, se ainda houver tempo.
Como dizia Jack, o estripador: vamos por partes.
Não quero julgar as pessoas participantes de um concurso dessa natureza, mas eu jamais participaria, mesmo que fosse por uma causa nobre. Aprecio contos e poemas românticos, leves, amorosos. Contos são libélulas esvoaçando nas páginas dos livros. Veja Cecília Meireles:

“É a menina manhosa que não gosta da rosa
que não quer a borboleta porque é amarela e preta
que não quer maçã nem pêra porque tem gosto de cera....”

Ou Clarice Lispector, ou Emily Dickinson. Todos temos uma missão a cumprir, e a do escritor é deixar algo assim para a humanidade. Escritos que possam elevar o espírito, não derrotá-lo. Não concordo com o erótico por causa disso. A pessoa vai lê-lo e poderá, se for fraca da idéia, excitar-se, e isso não é certo.
Veja também o poema de Milarepa. Uma jóia rara:

Isto mostra a ilusão de todas as coisas
Isto mostra a passagem de todas as coisas
Pense, e então praticará a lei e a consciência.

Ou de Rudyard Kipling:

Shere Khan, o tigre
adoraria pegar Mowgli
mas Mowgli está a salvo
com Baguera .

Que maravilha! O conhecimento que tenho no ramo literário não me permite ainda escrever textos que enobreçam assim. Sei tudo sobre literatura infantil, modestamente posso dizê-lo: Alice no país das maravilhas, Cachinhos de ouro, As dez maçãzinhas, Aladim e a lâmpada maravilhosa, Chapeuzinho Amarelo. Conheço também alguns livros bem escritos, como A teus pés, Mar paraguayo, Vidros e vidraças — um livro à prova de pedradas, de uma desconhecida. Aliás, a pessoa menos importante de Goiás.
Não, senhor editor, esse concurso não pode seguir adiante. Tantas pérolas verdadeiras.

“Não desperte o meu amor até que eu queira.”
“Eis que és formosa, amiga minha”.

Outro dia num consultório médico (uma raridade: o médico se atrasou), vi um guia de vídeo. E fui folheando, folheando, enquanto aguardava. Numa página, vi um certo filme em que havia duas mulheres com corpos esculturais. Estavam ajoelhadas (tem que rezar?), e uma pousava a mão sobre o ventre da outra, perto do púbis. A loira — uau! era loira — tocava levemente o seio da outra, sua gentil parceira. Eram muito bonitas e tinham seios grandes com mamilos rosados.

“Não olheis para o eu ser morena.”

Seios claros, claros. A loira chamava-se Dina (vi na sinopse) e tinha os seios em forma de gota. Que lindos! Que amor!

“Os teus dois peitos são como filhos gêmeos da gazela, que se apascentam entre os lírios.”

Uma suavidade imensa invadia as duas, e um tesão muito grande tomou conta delas. Fiquei perplexa. Qualquer pessoa que visse aquela foto tão bem-feita gostaria de ter uns seios assim. Algumas na boca, sem dúvida. Que desespero. Havia um espelho atrás delas que mostrava suas costas. Um primor! Espáduas suaves — linhas femininas —, formas leves, bumbuns arrebitados. Nuas, nuas. Como pode? Na mesma página, vi essas mulheres noutro filme. Estavam dentro de um carro. Sentadas, seminuas. Ambas com cabelos longos quase cobrindo os seios grandes, e tinha os lábios entreabertos. A loira devia ter uns quarenta anos, e tinha um rosto agradável de se olhar.

Não sei se a deusa sobe à superfície
ou se apenas me castiga com seus uivos
da amurada deste barco
quero tanto os seios da sereia *

Ela usava uma luva branca na mão direita (luva de pelica! Só podia ser) e oferecia o seio à outra com dois dedos, como se dá de mamar pra criança. Quanta gentileza! Que bondade! Seios cheios. Leite e mel. Tetas tentadoras. Língua próxima. Saliva. Gemido. Uma deusa. Uma deusa. Um de filme de amor. Virei a página imediatamente. Eu não teria coragem de fazer um filme assim. Ou um conto.
Senhor editor, reflita enquanto é tempo. Eu lhe peço por favor. Lembre-se: “Já Bocage não sou. Rasga meus versos. Crê na Eternidade”.
Que proveito eu teria participando de um concurso assim?

Assina a leitora,
Margarida Souza


*Ana Cristina Cesar.
eva


deixo roupa velha
quero novinha
em folha

sábado, 18 de abril de 2009

sweetie

laura, laura
laurinha
cute child
confiante na vida
criança feliz
me põe a cantar
alegre
a embalar

sexta-feira, 17 de abril de 2009

não é poesia
o que escravo



nada do que sol
brilha



aqueles jogos – brincadeira
de nossa infâmia


a vida me deu de presente
selo carimbado



ele nada
nada contra o rio



tremendão
erasmo


amor desperto
meu amigo Roberto
estou amando loucamente
namoradinho de amigo meu



bico dos seios
boca nos bicos



deixarei avisos
no quadro



ele meu poema lê
utererê utererê


hímen
sapiens


morro
por querer viver
ser mais feminina
sonho de menina


olho horas em brasa
ele sempre se atrasa



macho e fêmea
alecria



um sonho
assanhada


limpar vidros
embaça



intuição feminina
duvida, se quiser
teu beijo
servidão


cai neve lá
se aqui nevasse...



cada um dá o que tem
tenho dado




coração pulula
ula ula ula ula


passeio a pé
beijo, até



masculino, ô
feminino, ô
nu, nulo
honolulu



taboa no pântano
lavadeira na tábua




tua boca doce
colmeia




sou bela fera
carranca feminina de narciso



entregue
entre cruz e espada


cicio
no cio
fruto maduro
aprendo com raízes


lua brilhosa
generosa


algumas vezes sou insensata
outras, terrivelmente apaixonada



matarei meus defeitos
pegos em flagrante


tento ser versátil
não é fácil



falo
boca
síndico ri pra mim
sindicamente



chope gelado
amigo quente


teu perfume
nariz rastreando nuca




palavras amontoadas
difícil descarte




punhal afiado
poema infiel mata



tenho muito o que chorar
nada me consola
amigo, toque aqui
não na mão: coração


ciclo vital
minha bicicleta



pai, aguente firme
firme, forte


meus cabelos não crescem logo
adoro cabelos longos



espero sua carta
de olho no carteiro



dor pungente
agente
na uteí minha dor
desenganada



anel de pérola
vida cultivada


enfim sós
afins



amamento meus filhos
-- eis a recompensa



depois que você se foi
transfusão de sangue



por deus eu juro
dedos cruzados
gato no muro
ai,que susto



a gata deu cria
filhote natimorto


eu tinha coração de manteiga
ricos tempos!



caderno de anotações
impensadas ações


se fomos felizes?
perguntem às avencas



vi lágrima de ana c.
na página dispersa
toalha branca rendada
bandeja de frutas



meu querido
diário

mudei meu chamadoiro
tempo de mudanças




em tudo o que há
aids



correio sentimental
tal o meu sentimento



li alma de lyra
no elepê
joga pedras preciosas
na geni



marina morena
obrigada, caymmi




estante cheia
mente tagarela



partir hoje
não mais voltar




dizer pouco
até emudecer



lígia, lígia, lygia
eu ia me chamar lygia
discurso de puta: devo, não nego
pagarei quando foder



escravos e escravas no canavial
orgia, bacanal


folha branca, caneta azul
pra mim é o céu



forma, sombra
fantasma assombra


eu, de lua
ele, de sol e lua




uma rã mergulha
tento salvá-la
cão lambe meu rosto
você morre de raiva



estou com você
e abro


vento venta
viro o rosto


patada, coices
cavalo!


não dou conselhos
me dá? dou de ombros


sinhá moça
leite moça
furto a rosa vermelha
de vergonha



minha glória





vale
um beijo


olhos vendados ante o morto
deus é perfeito



eu
maga´


fico fora de órbita
sono sideral
tinta no tinteiro
trapaceio


dor eu dispenso
ah, a poesia



cedo tarde
noite


namoradeira
sob a cerejeira


menino travesso
não me vire do avesso


lembre-se: vendo gato
por gato
gil
aberto


sou fútil
inútil?


almas gemem
gêmeas


diga lá
alá



seu olhar me queime
venus was her name



caetano vê
zeloso
sansão e a força
de dalila



tenho alvorada
não quero mais nada


coração aos pedaços
na tua bandeja



amor
moon...



sou 100%
mentira



aninha se aninha
sinhaninha
no túmulo
o cúmulo


sou boa filha
sigo a trilha


cantiga
de nanar



fui de cama e mesa
saltei pela teresa




leia o poema
na sua cabeça, diadema


ser poeta tortura
doidura
um menino chorão
chico buááá


amor vinho prazer
mil e uma noites


essa bola
que chicle!



Onça tigre leões leopardos
feras mansas comparadas à você



conto com você
neste conto



de cachoeiro do itapemirim
escreve rubem-rouxinol
manha de ser
amanhecer



além da colina
paulo colina



sarna pra me coçar
vê se não irrita


seu doce manuseio
mão no seio



vi seu coração
visível


montanha rio monte
conte mais, conte
cigarra
sim, garra



mote
morte




batom
no condom


imagem congelada
polvos congelados




para quem crê
crepúsculo




vivo só
sem pai, nem mãe
desprezo
vende-se gelo



plááá!
plátano



cama
quase



sacar
com o soco



mergulho
só engulho


artificial lã
à luz da lamparina

quarta-feira, 15 de abril de 2009

ivo bay müller

deus por todos
ivo by me

batismo de fogo

escrevi seu nome
a ferro ardente
no meu rosto frio
in nomine Patris
et Filii et Spiritus Sancti
como sinal
de minha febre

aprendiz herege
pra mim tanto faz
te marcar também
pra sempre, eternamente
na face de meu poema
ou na poesia de sua face

generosa em fogo
te despertarei
com brasa acesa
no seu lindo rosto

meu homem

será meu deus
seja alá
quem for

mãos de mestre

mando carta
bomba! bomba! bomba!
ao abrir
suas mãos se desfazem
nos meus beijos
muchos muchos besos
kisses many kisses
muitos muitos beijos

num doce caminho
suas mãos se refazem
generosas
aveludadas
maravilhosas

em linguagem cristã
um carro-bomba
eu, suicida
querendo morrer
de prazer
em suas mãos

escultor

rude
bruta
em suas mãos
delicadas
sábias

entalhe essa madeira
por um dia
ou uma vida
inteira

séculos mais tarde
ainda ouvirão de mim
canto dos sabiás
falando de amor
aos manacás
dentro de meu templo
te aguardo
noiva
silenciosa
fora do juízo
você trabalha com palavra
tenho medo dela

sim, arma que trago
afiadíssima
na bainha

não tenha medo, amor
prometo deixá-la sempre adormecida
mesmo que cutuque
esta onça
com palavra curta
deixemos nossas mãos
-- esculturas --
falarem por nós
seja lá
o que eu tenha dito
é sempre voo
de mosquito
me abraça
               como a um amigo

me reconheça
              como a um inimigo
vou dormir
não é tarde demais
meu coração
não está comigo

deixarei meu peito aberto
pra que entre
sem bater

presente dos céus

quero agradecer
mas não tenho lágrimas
entende quando meus olhos, mãos falam
descobriu códigos secretos
meu coração revelou-se
às claras

mostro a língua

até minha língua
promete fazer tudo
pra te agradar
vai pensar
duas vezes mais
antes de falar
quero te dar
se não for
pedir muito
algo em evolução
nesta natureza

seu sorriso
pura beleza

domingo

ele toca
a campainha
eu
salivo

político

placa
PARE
mas ele é homem
de ação
não de palavras

logo ri

harmonia

amai a todos os druidas
as sereias
ondinas
salamandras
fadas
bruxas
ninfas
santas

todas me habitam
e uma
às outras

reviva

esculpe
em pedra sabão

pedra exposta
toma forma
quando me toma
nos braços

viva a morte desta pedra
agora em forma de coração
dentro de meu peito

viva a vida
suas mãos criam
viva! viva!
minhas mãos
acariciam
meus seios

enquanto você não vem
minhas mãos
em vez das suas
me aliciam
por outros meios
formigas
nunca mais cortem
folhas das roseiras

tirem espinhos
para proteger
a estrada dele

cubram o chão de pétalas

formigas, rainha, operárias
quando ele passar por aqui
façam reverência
como a um príncipe
de um reino
há muito desaparecido

na barbearia

eu fazia sua barba
com todo cuidado
medo de cortar você
espuma em seus olhos, boca
demorar ali
era o grande desejo
sem barbeador moderno
fio da navalha
esmero da barbeira
vez em quando
minha mão roçando seu rosto
eu beijando espuma
grande traidor, facínora
me dilacerando
com seu desdém
y mujeres, mujeres
você me convidando pra dançar
no grande baile dos hipócritas
onde o homem que eu amava?
barbazul, barbazul
eu dormia a seu lado
era um sonho e tanto

ninho

tomo em minhas mãos
pássaro com voz humana
soprando em meus ouvidos
estranhos poderes mágicos
senão vejamos
entender como é feita
pétala da rosa
me conceder dom
de colher fios de ouro
dos raios de sol
tecer uma rede
para capturá-lo

trazê-lo no bico
ao seio

poema escultural

quero aprender
a fundir o metal
pra unir escultura
a fogo e brasa
poema monumental
à altura de seu nome
mesmo que ninguém leia
-- reverso da aliança –
pacto com deus
arco-íris iluminado
poste de ouro

gostosura saborosa

seu beijo
não ficou
bem marcado

de novo
tatua
seus lábios
nos meus

eu, em pessoa

dor
diante dele
de não ser nada
nem sequer ser
antes quase fosse

tão pequena
aos seus olhos
ele, enorme
antes fosse antes
quando era quando
e eu era
escreverei poema
digno dele

à altura
de sua majestade

poema nobre
-- cetro e manto –

quando voltar
me cobre

o que importa?

sei, há uma porta
no escuro
o que há por trás
quem poderá dizer?

resta somente
meter os peitos
derrubá-la
e, no futuro
talvez dar com o nariz
na porta

dar de ombros

porta que emperra
aos pés se empurra
-- sai da frente, burra!

Meu Reluzente

pra você
torno ébrio
o poema
mais sóbrio

teu sábio
equilíbrio

que falta em mim
sobra
em você

bárbaro

pra conhecer a bela
em mim
preciso dormir
com a fera
em você

dominá-la
sentá-la no meu colo
acariciá-la
rolar
fazer cócegas
focinho com focinho
alisar os pelos

depois
implorar
meu tiro
de misericórdia
adiante, meu camelo
suas pegadas
sua sede
sua tigela de mendigar
neste deserto
descarnado

em mim
corcovas
de um passado
arenoso

o rei e a lenhadora

sua doçura
sutileza
nobreza
generosidade
sublime figura
ficaram impregnadas
nesta casa

nem palácio de buckingham
casa branca
rosada
caiada

o rei visita
a lenhadora

tropical

generosa, dou
sempre quero dar
maçãs
pêssegos
damascos

kamala

menina lobo
rosnando
com medo do escuro
acuada
num canto

lambendo teu prato
me farto
meu dia de mingau

requintes

cuidado
se você vacilar
vou te mostrar
a flor azul
te deixar
maluco
te levar
ao delírio
te fazer
subir pelas paredes
nas raias
do Prazer
Loucura
Alegria

perigos
latentes
que ofereço

sob o signo da solidão

talvez não devesse te falar
eu nunca deveria ter feito aquilo
foi como atear fogo
em meu próprio corpo
depois me sepultar
no fundo deste quintal

não não e não
não posso dizer
mas me arrependo
o arrependimento me mata
coloco meu rosto no chão
frio do mármore atesta

modelo para criação

serei aquela
pobrezinha
que saiu do orfanato
bobo
de sua corte
se quiser, ornato
pra sua arte
me presto
a isto
não presto
sinto muito
serei a tormenta
brainstorm
de (mal) criação
de seu momento
mais inspirado
serei o poema-tormento
de suas noites em claro
claro!

bobo da gema

prove o contrário
alguém é sempre bobo do outro
faz parte de qualquer logro
eleger um otário

sou pinto
saindo da gema
bobo
na casca
de novo

à meia-luz, o barro

formas perfeitas
suas mãos
modelando
rosto seios ancas

basta ser barro
argila
pra arder

ai de mim

me dá seu cinzel
toma o pincel
troca muito camarada
vejo na moldura
gênio da minha pintura
eu, pedra tosca
chinfrim
dizendo sim ao cinzel
sim ao sim
simplesmente

mel, frutos silvestres

sépalas, pétalas
pólen nas corolas
enxame de abelhas
atraídas
pelas páginas
do livro

quisera me nutrir
deste mel
trazê-lo
voando
aos meus beija-flores

profissional

bandido
há de voltar
o criminoso
sempre volta
ao local do crime

sem capuz
vai me tirar do cativeiro
tirar mordaça e venda
desatar
meu coração

e aí
chamarei os homens

ciúme – x da questão

não, não quero
não concordo
só sei somar
não sei dividir
nem deus soube
sobre o amor, veja a parte
que me coube

que você quer?
eu, tendo y
ache o valor de x?

o que vejo, verão

faça de conta
sou ave
andorinha – que tal?
aninhada em seu colo
segura
em suas mãos

presa, feliz
canto
a liberdade
nesse voo
cego

superávit

me liga
a cobrar
te devo

devo, não nego
carinhos
acumulados
no banco
de dados
não recebidos

tudo é diferente

it’s all brand new
falo às clorofilas
clarão
resplandecente em mim
estampado em meus olhos
íris arco-íris

te vejo
em estado de poesia
nesse conto de fadas

com você
é outra história

me consumir aos poucos

desejo ardente
me queimar nas chamas
dessa brasa viva
vela em sua mão
que chama

uau...
euforia fulgurante
de quem nunca viu
cara de pavio

limiar absoluto

vem, vem anjo
fica comigo
estamos no limiar
da felicidade

desejo
de fidelidade absoluta
me acomete
só acontece
quando uma mulher
chama
de verdade

elegância a toda prova

feixe de luz
teu olhar noite serena
tua alma desfila
seduz

um passo à frente
devo olhar
o caminhar manso
de teu olhar

real aventura

gentleman
príncipe
e a fumaça do cigarro
reinando
soberana

se eu fosse rainha
daria meu reino
pra reinar
com ele

manual de sobrevivência na selva

pareço bicho do mato
desengonçado
perto desse gigante
pela própria natureza

mesmo se você me amar
estarei em extinção
à espera do salva-vidas
idolatrado
puxada pelos cabelos
salve salve

me amasse
me ame
à luz do sol e ao som do mar
se desta eu me safar

negra lua

no céu terrestre
a lua
terra- a-terra
escorre
de amores
pelo sol
celeste
ama eclipses
morre
de calor

a luz
se derrete

cigarro o diverte

não por mim
se você quiser
pare de fumar
senão esse seu coração
todo charme
não aguenta

o que você procura
não está no cigarro
seus sonhos de fumaça
não estão nem aí

pro seu governo

aqui quem manda sou eu
dona legítima de meu coração
mas o fechei
com a chave dentro

você se habilita?
não há quem o destrave
não vale tentar arrombar
não vale copiar a chave

lençol florido

leoa
dilacerando a caça
colocando
com a boca
na sua boca

libélula
levitando
com a libido
transparente
de suas asas

formas do desejo

formas abstratas
à distância
não consigo definir

saliente, a saudade
traz seu rosto em relevo
até mim

fecho olhos
tateando busco a forma
encontro seu sorriso
e a fumaça do cigarro
formando figuras
anjos barrocos
carrancas risonhas
pios de cotovia
dedos mesclados
algaravia
baratas da parede
digam que foi
uma fatalidade
houve engano
somos apenas
boas amigas

para provar isso
tomem chá
de sumiço

óculos escuros

você no topo da montanha
desceria?

um sonho:
se eu fosse neve
você esquiaria?
te catar
feito grão de café

esse gosto
amargo
de insônia

melhor me servir
de tua ausência
solúvel
na distância
“A gota está no Oceano
o Oceano está na gota.”

estou pensando em você
não me sinto só
não peço nada
não sei o que ofereço

estou com você
no pensamento
sim, você você você
preenchendo as paredes deste quarto
a cama enorme maior ainda
teu rosto em cada gato
nas plantas tua voz
teu ritmo denso
seiva
na chuva despencando lá fora
na música que me toca
você você

eu, toda sua
toda você
toda vida

ígnea

me faça magma
esculpe de vez
essa estátua sem sal
plasme-a
lambe-a
não se preocupe
não se desculpe
não olho pra trás

colheita de carícias

pobres abelhas
nunca saberão
o que é
mel puro
apegar-se desapegadamente
nem a pegar-se
sofregamente

nem a pegar-se
às migalhas

mensagem ao mar

mar
preciso encontrar
ponto g
de sua ira

te ver golfar
furiosamente

pacifico
no gozar gostoso
sentir teu corpo lânguido
sobre areia
quente

nas nuvens no chão

nunca tive chão
estou sempre voando
no entanto
estávamos ali
o chão falando mais alto

nunca o chão
foi tão macio

baião-de-dois

quando quero
falar com você
minha mão
escreve sozinha

escreve juntos

bolero

e se eu for apenas
pingos de chuvisco
na sua capa
após a chuva?

você chega em casa
-- imagino –
tira a capa
e pendura
atrás da porta

e se eu for apenas
pingos de lama
que jazem no chão
caídos de sua capa?

talvez eu seja aquela
a quem você
dê as costas
pra que eu
carinhosamente
te cubra com a capa

coisa de amie

minha cachorra
me olha, olha
onde ele está?
onde? onde?

me fala
numa linguagem
só eu entendo
sem tirar os olhos humanos
de meu coração

céu azul

águas
onde navegar

ondas
onde surfar

mar
onde afogar

oceano
onde (h)a mar

por falar em anjo

eu, dividida por mim
guiada por deus
som da trombeta
de um serafim

do jeito que o diabo gosta
é muito açúcar
pra minha rapadura

ou é o próprio diabo
buzinando
em minha cabeça
ao fim e ao cabo?

matar a charada

cupido
me flechou

te quero
como filho
do arco

fatias de migalhas

galinha ruiva
com muita honra
você, porco
do zodíaco oriental
me ajuda
plantar
grão de trigo

amasso trigo
asso pão
depois de tudo
ainda peço
fatia
de coração

sem reservas

meu coração
pulso
pulsam

esperança
nas artérias
me impulsiona

há coração
perfeito
inteiro
em seu quarto

no mundo do sol

ó lua amada
ó sol generoso
ó estrelas cintilantes
ó seres infindos

diante de meu amor
tudo é tão íntimo

sol
solte-se, salte
na lua
virando lobisomem

decifre uivo
da lua

por clemência

mágoa
inconstância
melancolia
dúvida
ciúme
carência
voz débil

meus algozes
me tornam
absolutamente incapaz

não exija de mim
prova hábil
ferida não se mostra
cicatriz
está exposta
chove
não tenho previsões
nos próximos dias
nem são pedro tem
meu tempo estará sujeito
a bom tempo
só se ele voltar
sim, farei sol
mesmo com chuva
em taças de cristal
tomara que chova mais
oxalá em nossa aorta
oxalá em nosso piquechique

coração mole

poesia
ou chorinho?

meu coração
vazio
cheio
de solidão

bobeia
bombeando
nem batendo
nem apanhando

chora baixinho
cansado
de ser bobinho

quando a manha chegar

na boca da noite negrinha
quando tudo estiver calmo
quietude na estância
mansidão – aquietados ventos cortantes
breu – apagados pingos de vela
trazendo a luz
direi: psiu...

direi: psiu...
às estrelas, aos sacis
aos baios das gravuras
te cobrirei
com lençol de beijos
suavemente o pastoreio
depois do sonho
nas nuvens navegando
psiu...
eco, este amor
é só metade?

o eco me responde
inteiro inteiro

banhada pelo oceano

não me chame de louca
não cometa esse desvario
eu jamais perdoaria

depois que te conheci
tenho vontade de beijar o mar
abraçar o mal
[calma: é o sal]
apalpar o mar
às escondidas
expulsar o mal
 [salmo tal]
colocar o mar
no pódium
coroá-lo com louros da vitória
ou nesse recipiente imenso
[meu coração]
ainda dizer
há espaço de sobra
pra mar, mar e amar
amar

bem ou mal
ser tao
tal é meu amor
oceânico

FELIZ ANO NOVO

faltam cinco minutos
para o primeiro dia do ano
você não está comigo

tenho frutas, bagos
a companhia dos anjos

se você não estiver
não está mais aqui
quem falou

segunda-feira, 13 de abril de 2009

sussurro na pele

não sou poeta
poeta é você
com emoções
à flor
do sangue

palavras bonitas

libélula céu carta brisa fada
amanhã avelã letícia louvável realidade

linda vitória fúria verde
trilha poesia videira uva
cristal história ousadia amigo jardim
festa primeira time
namorado baiana clima estima
heart blossom shamballa
abotoadura valença polícia
tela sérgio juracy liberdade
portugal coimbra amália ministra
ciclista ígneo etna

domingo, 12 de abril de 2009

menina curiosa
quer pôr o dedo
no fuso da roca

cuidado
perigo
bela acordada
dorme no sono
boceja no filme
brinca
com molecada

mãe-terra




in memoriam (1935-2007)

olá olívia
mulher de pouca estatura
e muito fazer
fio-terra
manto que cobre
os filhos
bezerros órfãos de pai

alô olívia
te vejo
neste ensejo
criando as crias
germinando a luz
vinda de Deus
que recebo de você

elo
olívia

pekowal

inferno fervente
minha alma morna
à espera de temporada
mais amena

creio na bondade
calor da voz
doçura da amizade
tua beleza

é passageira esta passagem
madura
tua madureza
vem verdadeiro
segredando
medos

mentira
a verdade
do meu segredo

(me)tira
(de)verdade
da mentira

rock my world

what are you waiting for?
I know, babe
você sabe de cor

mel de uruçu

hoje o que parece ser
o mais sensato
sábio
merece um refletir
ainda mais profundo
nada que não possa
you’ll do your best!

reserve para próprio bem, de outros
as energias guardadas
mel nutrindo de amor
o coração -- ainda mais
será a colheita futura
brilho no olho
alma repleta
se arma
de longa visão
se não intriga
chama
só teu olhar
preenche
noite longa
interminável

não cabe falar
-- quem dera –
basta os olhos
olhar

RH POSITIVO

pálpebras insones
olhos não repousam
contam
histórias dramas tramas

em círculo
cumprindo a sina

serão pálpebras insones
livro-lente aberto
para futuro próximo
desperto?

olho do tigre

olhar
igual a tantos
ou não? ou não?

que há por trás
desse olhar?
cor ação
ou não? ou não?

triângulo (quase) perfeito

o que vê a íris
e retém o arco
para si

o saber
num volume
tal
a vista
não avista
e deságua
registro tristeza
de teus olhos solitários
lágrima, ninguém vê
oculta
no teu peito

registro inquietude
de mil folhas escritas
na pressa
da impressão
dos livros
livres
pássaros
de mão em mão
sabendo e olhando
tantas grades
bicho-prisioneiro
fugidia alma
desejando expandir
já se vê
por inteiro

vê a vida
com outros olhos
quero compreender
o brilho
olho mais e mais
olho mais
mais e mais

sim, algo aponta
trilho

menina dos teus olhos

de tanto olhar
vejo teu olho vendo
esperança
mão estendida
ao outro
ao pequeno aflito

me aproximo
de teus olhos
da menina
que te ilumina
e te vê

também sorrio

de tanto sorriso
vejo o sorrir
fixo
facho
não se fecha
não e não
sempre
alva risada

ai que lindo

poderia ser
até menos
no entanto
é tudo isso
teu sorriso
largo de sonho

ai, lindo seria
se fosse
todo sonhado
o que sonha
banhado sorriso
envolvente
doce quente
obrigada pelo sorriso
vibrando
de felicidade tanta
será que mansinho
canta?

eu nem sabia
o sábio sabia
poema
assobiar
lábios
ridentes
boca
rosada
ria
risada
rosa
mundo

lábios puros

belo sorriso
beleza
vem de dentro
se mantém
no que concentro
belo sorriso
alcançará o ápice
na liberdade
de comungar
com os teus

não te poupe
sorria sorria sorria
mesmo falando
em maria
perdão de pena
basta teu sorriso
sincero
ao extremo

sincero
à toda prova
ímã

muitas marias

ouço o som
de teu sorriso
na palavra
presa

falando em maria
querendo
teresa
não e cale
fale fale
você falou
e tá selado

na pausa sorria
cuidado
você está sendo
filmado

creio em você

lábios
história fantástica

sim
(bom) sinal
pura verdade
sempre sorria

teu sorriso
carta
de alforria

liberdade é questão de tempo

nem tigre
nem raposa
alma
andorinha

em fios
bambos fios
se aninha
brilho
tua luz
ramos
crescentes
al(gu)ma
verdura

brilhoso

olhar belo
buscando
ônix
em garimpo
cheios de pedras
no sapato
imagino
como eu
você não dorme

não dorme, neném
não descansa
na madrugada

à espera do Sol
a Lua
também está cheia
pedra
não se parte
aos golpes

gelo
se derrete
a outro olhar
só ao olhar

acalanto para pernille

-- uma jóia para sempre –
(filha de erik e camilla, neta de hosmany ramos)

-- incrível, a cada dia mais linda
diz o avô, babando
-- impossível, digo, como mensurar
a beleza da beleza?

imagino entre tantas
pernille – a joy forever
veio trazer o doce da doçura
paz na asa do sorriso
experienciar o amor
de todos ao redor

imagino minhas mãos
acariciando sobre fotos
pele-bebê
cheirando a futuro puro leite

imagino meus olhos
me mostrando viva e linda boneca
da mais fina porcelana
pedindo colo

imagino meus braços
ninando e ninando noite adentro
te embalando, pernille querida
em poesia puro leite
você acaba de chegar
você é bebezinho
bebezinho quer mamar

ROMÃS

num momento
ela deverá se afastar
nem eu nem ele
faremos nada
pra que isso aconteça

chegará o momento
ele me dirá:
sua hora é agora
enfim

sutilezas

veio me visitar
não crê nisso?

cobriu-me
nuvem branca
de sonho
todo azulado
promessa de amor
trouxe
por instantes
felicidade
doce doce

crônica de rubem braga
em paz
dois bichos mansos
olhando a eterna lua

era sonho
de você

desabafo

tua arte
ferir
mortalmente
os que

longe de mim
ideia de te causar dor
dentro desta solidão
faça-me um
favor

cláudio e neide se amam

nome do bandido: cláudio
tão coxo, corpo roxo
folhas numa ramada
canabis sativa
marca definitiva
neide: nome da amada

tocando dedos

delicada mão
escala muros
mundão lá fora

sexta treze
nada acontece
de bom
retorna, à força
à antiga casa

de mal
com a vida
não dá mão
à palmatória

tatuagens falam

braços cobrem o rosto
mostram tatuagens
vida – teia
tempestade não desmancha

braços mostram teu rosto
olho para ele
não para a mancha

tapinha nas costas

coragem
se diz perigoso
duas velas
lado a lado

tua coragem
dando as costas
ao punhal
teus poros
sangram nesta cruz
fica a marca
só tempo apaga

duas velas acesas
e ainda falta luz

inocência

no peito
dois nomes
-- seu, dela –

tua mão
afaga a própria pele
como se o peito
não soubesse
ninguém diz
fica marcada
a ferro e fogo
no coração tatuado
bela cicatriz

enxofre na pele

tridente
já não assusta
isso não é vida
coração duro
pele
curtida

teia da memória

condenados
morre o cúmplice
carimbo fica na pele
aranha
tecendo ódio
um dia será aplacado
na queda-de-braço
com o Criador
da aranha
que te assanha

lado esquerdo

cores fortes, firmes
decisão irrevogável
traços indefinidos
não levam a lugar algum
o que você fez
está feito
o que você disse
tá na pele

se deseja pureza
poema remove
tatuagem macabra
sei não
sei não o que te comove

sedução

ouviu canto
tonto
tatuou sereia
na canela

ouviu sirene
não consegue
mais dormir
com o canto
dar cabo

punhal no coração
cravado
sem medo

da lâmina escorre
sangue
tatuagem
treme

dor banal

quem foi
não volta
para apagar
a marca

re-volta
na arma tatuada

de costas pro crime

tatuagem de monstro
no templo ultrajado
satã impera
mas não vive
morto
em viva pele
não ressuscitará

ignorância

jato de amor
perfura o corpo
sem maldade

se outras tatuagens
aparecem
piedade
senhor, piedade

não maduro

ventre tatuado
folhas verdes
nervura

ventre tatuado
marciano verde
nervoso

garante que não

pula-carniça

todo o corpo
des coberto
por tatuagens

todas as tatuagens
fechando teu corpo
cavalo alado
não descansa
jamais

pigmentos

dor nos braços
agulhas nas veias
-- tatuagem –
veneno para sempre
sem arrependimento
por(h)ora

ilusão

dedo apontando
a lua
não é a lua

dedo apontando
a arma
não é a arma

lamentos

loucura
na pele
se revela
da mente
tatuando verdades
doloridas

marginal

mão tatuada
espalmada
lembra
data

mãos tatuando
a si próprios
se ferem
impuras


imaginam-se
livres
de fugas

tatuar santa, arrependimento

tatuar
nossa senhora
na pele
santo arrependimento

tatu
age

sábado, 11 de abril de 2009

eternidade

enjaulado
anda em círculo
pensa na vida
se debate
prevê morte
da tarde
respira aliviado

encontra-se
prisioneiro

rainha do xadrez

poete, ta fenetre etait
ouvert au vent
hosmany ramos


janela gradeada
vê o sol
me vê na janela aberta
me imagina solta
-- lua—
imagina...
ninguém dizia
do teu coração
oh sim
havia, sim
belo coração

ninguém acariciava
o cérebro
do seu coração
ou o coração
do seu cérebro
a escolher

marcha à-ré

cair da tarde
este fora
nesta hora
antes fosse
como antes

cair fora
agora é hora
antes tarde

you wait and see

nada te importa
que interessa?
destruído por dentro
corruído
pela violência
bateu lá
voltou
ao ponto
de origem

alvará de soltura

bravo! bravo!
mais um dia
você e seu coração
resistiram

um dia
você acorda
sem algemas
nos pulsos

sim, grades
se abriram

platônica, narciso

beleza pura
liberdade
almejada

beleza dalma
espelhada
dormir
a que preço?
buscar sono
no abandono

rumo à luz
ao acordar
arremesso

tua carta

desamparo
insatisfação
reclama

nada é bom
nada está bom

dor é preço
a vida te cobra
aguente firme
não adianta chorar
alívio
demora pouco
ora, pois

visita

tensão
fala rápida
tempo curto

tudo cronometrado
como se a vida
fosse extinguir-se
em segundos
ali mesmo
no pátio-de-sol

assim seja

mesmo assim
te visito
mando telegrama antes
beijinho quentinho
abração quentão

assim mesmo
apareço
acenando
aos pálidos
das janelas
nos cubículos

são meus irmãos
sinto muito
estou do lado
de fora
soltar algemas
é com você
pare, pense
está tudo aí
idéias
intuição
amor-próprio

basta querer
se libertar
para sempre
voar voltar voar

sunday

leve tudo
na leveza
vida dura
mas não vale
fiapo
de tristeza
disfarçada

digo, amigo
OK
você
vem
seu

fútil

tudo em você
incógnita
tua voz
gestos
vidanseios
mente
desejos

tudo em você
atrai
pelo mistério
sirva-se de meu bem
de meu melhor
do que sei
e não sai

de meu bom bom
em barra
docinho
natural

presos um a um se recolhem

acompanho
com olhar
sai rapidamente
vai à cela
-- teu aposento –

entro com você
te confortando
mas sei
nada te acalma
nada te interessa
palavras são palavras

nem a liberdade
te faria feliz
quer saber?

no piranhão

bate sol
no pátio

lá, naquele lugar
até o sol
torna-se violento

tua impaciência:
“mais um dia
e não aguento”
no pátio
brinca o sol

pombos no telhado
espiam, livres
os presos

sol, come out
come out
me dá a mão

dia dos pais

crianças ainda crianças
filhos dos presos

grades
carcereiros
lugar sem atrativos
frieza dureza

ao redor dos presos
sorriso das crianças
elo formando teresa
de amor

texto me fez chorar

com bebê nas mãos
-- pura emoção –
tem tudo
não tem nada
a ver

poesia
rompe correntes
cadeias
liberta, dilacera

não crê
em nada – nada a ver
linhas lidas
não tem olhos
para ouvir poesia
no entanto
escreve
poema,tonto

mira

paris
dia de prêmios
sim
uma letra
francesa
se resume em
comemorar

vide capa

fui retratada pelo amigo
a mulher da capa
não se parece comigo?

é meu perfil
só o amigo viu
essa mulher sofrida
que não esboça sorriso
a quem passa por sua vidraça
já não consegue contar nos dedos
todos seus medos
retraída, a tudo observa
sendo observada
é vidraça,vidraça
sim, a mulher sou vidraça

às vezes bendigo esse perfil
outras, ignoro
não, não, eu o adoro
o amigo assim me vê
a outro qualquer
tal imagem escapa
não se parece comigo
essa mulher?

dê uma olhada na capa...

sexta-feira, 10 de abril de 2009

abriu veio
sobre águas mansas
encontrou-me aguapé
veredas na mata
verde cascata
reflexo em mim
perplexo
abril veio

andar da pantera cor-de-rosa

sonia tem rosto redondo
acho lindo
fuma pra caramba
acho feio
mente vívida, lúcida
o máximo o máximo

sonia sabe o que diz
sabe das coisas
com coisas
me ensina a ser sutil
ah! se o mundo fosse feito
de sutilezas
e sirolli...zas
ajoelhar
orar orar
implorar migalha
de vida
a mais

pergunta
que me falta, intriga
está em sandy

sandy me pede colo
poesia coisa alguma
tem dom
de transformar

importa saber
se fiz
por merecê-la

resposta
vem no latido da cadela
com rabo abanando

cindy lambe meu rosto
dor de escrever
na dor – chagas abertas
buscando cura
sem saber onde
o alívio de encontrar

dor de escavar
no triste ofício
de se rever
alguém me cumprimenta
esfuziante
na correria aos bancos

quem? não me lembro
nem a mais vaga memória
não tenho lembrança
nome? onde?
alguém na rua
faz festa pra mim
dia acaba
me acabo com ele
viro noite
de lua
cheia do dia
compreendo
resfriado te derruba
a mim também

quando a gente vive só
dor de dente
dói mais

infinitamente
teu espírito se desprende
me visita
de madrugada

nuvem densa
não assusta
deita do meu lado
toca meu ombro
com sorriso leve

longe de me fazer mal
de perto me faz companhia

dá núbio azul

sonhei com você
não consigo me lembrar
sonho confuso
convulso
com valsa

morador da cela 73

de galho em galho
no piranhão
celas, sequelas
fazendo amizades
acorrentado
pobre coitado
levando a vida
aos trancos
da cadeia
outra vez a canção
pela milionésima vez
buscando nas esferas
cota necessária
de poesia

viver sem poesia
na fragilidade da bolha
é estar sempre
por um sopro

hosmanya

colecionar dados
nunca jogaremos
se sabemos ao certo
jogamos
no outro lado

certo
certo há mérito
nesse mexer de dados
em que se vira o jogo
nas probabilidades

me chame pelo nome

onda agora é luz
luz claridão

darkness, anda
desvaneça-se no teu breu
vista-se de luz
enluara, inunde-se
dessa luz poderosa
forte, olhos não suportam

sempre amanheça, darkness
amanhãs felizes, deslumbrantes
apareça, por piedade
na luz e luz
me reconheça