quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

FELIZ ANO NOVO DE NOVO

cinco minutos
pra nova década

os cãe assustados
buscando meu colo
fogos estourando seus tímpanos
e meus

também eu
rogo por silêncio
ano novo sem artifícios
sem artes
nos ofícios

silêncio para rogar
por meus irmãos
encarcerados
dentro e fora
das prisões

sábado, 19 de dezembro de 2009

revistando revistinha

rasgo
engasgo
na espinha

em plena
era de aquário
magali comendo
peixe do aquário

era de peixes
já era

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

please do

se não vir
em minha poesia
amor
redenção
alegria
compaixão
paz

vale a pena
(se) olhar de novo

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

matilha

madrugada
barulho fora
medo salta
aos olhos

solto
cachorros

domingo, 13 de dezembro de 2009

lar DOCE lar

belo dia
habitaremos
o planeta Doce

lá, irmãos são irmãos
não são parte
de cardápios

domingo, 6 de dezembro de 2009

tiffany, híbrida-de-chá

rosa que te quero rosas

minha mãe amava
favorita entre tantas
recusa renitente aos espinhos?
fazia mudas
presenteava

voltou aos céus
sem saber seu nome

tiffany
desabrochando hoje
chuva de alegria
das pétalas
no absoluto favoritismo
de olívia

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

rico menino rico

na pista
mergulho de tio patinhas
batismo nas moedas
na corrida do ouro

nos mistérios
também elevado
sai na frente

dá pista
eike batista

sábado, 21 de novembro de 2009

com o vento vamos

bem me lembro
jorge alegre tocava e cantava madalena
we can work it out
when i'm sixty-four
eu, nos meus dezessete
achava máximo o inglês dele
jorge, ídolo de sempre
o máximo

meus irmãos celso, élcio
tocavam violão na garagem
celso cantava nuvem passageira
na rua na chuva na fazenda
beatles
every single day

os dez negrinhos agora são sete
beatles love songs
cristal bonito
aí vem
mais nuvem

eu era pra casar

dona olívia
no leito de morte
me pediu duas vezes
"não se case mais
alguém tem de cuidar da família"

feito bebê
quase bebel
começou chorare, mamãe

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

bruxa do 51

perdigotos do ângelo
no bolo

velinhas
para a velhinha vegana

sim, comi a cinderela
cheia de graça
cheia de glacê
cheia de guspe

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

find the good

a armando freitas filho

seu olhar
me custou noites sem sono
pela profundidade
da tristeza

cada um é filho único
d'O Criativo

setenta anos? who cares?
morte? who cares?

se morremos aqui
nascemos lá
se morremos lá
nascemos aqui
assim vamos
e venhamos

posso fazer algo por você?
o meu melhor ao teu olhar

gentian - esperança
sweet chesnut - consolo
white chesnut - calma mental

find the good
find the good
find the good, amado armando

terça-feira, 22 de setembro de 2009

todas somos rainhas

roberto carlos é teresa da praia
esqueçam o roberto, mulherada
caiam(os) na real

então vamos
cair
no caetano

terça-feira, 19 de maio de 2009

Tela de Hosmany Ramos - Olhar na multidão


Foto: Rita Elisa Seda.



coração de menino


ele - incógnita
impossível saber
que pensa, sente
sempre de costas
a quem o olha
esperando compreender
coração
coberto de gelo
derretível
meu eleito
e tantos anônimos distantes

meu coração chora
estamos juntos
numa tela retratados
nós - você e eu
esperança
sob manto pura emoção
vermelho
tantos rostos
na multidão
ela vê
só um
olho no olho

mostra os lábios
vermelhos
sérios
dez homens
abraçaram
beijaram esta mulher

ele conta os homens
um a um
dez pretinhos

mulher atenta
julgando
condenando
apenas com olhar

Tela de Hosmany Ramos - Família


Foto: Rita Elisa Seda.



feto no regaço
da família

repouso
merecido
nunca houve
e a inocência
a mãe
olhar perdido
vê o filho
cor-de-rosa
recém-nascido

mão espalmada
no peito do pai
pura gratidão
aos céus
a ternura do filho
para com os pais

por favor
a volta ao colo
abrigo do útero
almejado
para o retorno
mais puro mais puro
pai escuro
mãe clara
filho rosado

sono profundo
adormecido
em colo esplêndido

Tela de Hosmany Ramos - Fazenda mineira


Foto: Rita Elisa Seda.



homem entre bois
não há diferença

sombra dos bois
sombra do homem
não há diferença

vida segue
para os bois
tanto quanto para homens
na sombra
vida singela
dia claro
céu muito azul

mastro se mostra
pinheiro verdes

ruminar a vida
tão distante
tão de perto

perdão mútuo

perdido entre bois
novilhas
casa da fazenda
antena

encontrar-se um dia
com o antigo dono dos bois
ser capaz
de fazer acordos
de cavalheiros

Tela de Hosmany Ramos - sem título


Foto: Rita Elisa Seda.



seres suplicantes
uivando
desesperados, solitários
ao deus que imaginam
tê-los abandonado

faces aterrorizadas
bocas se abrindo
esperando maná

rangendo dentes

ele e o companheiro
desgraçados
sofrendo o mesmo tormento

passarão a vida
condenados
ao inferno

eles próprios armaram
perdão, Pai
arrependimento nos aniquila

perdão, Pai
que notícias boas nos traz?

dá-nos Seu Veredito
dá-nos Sua doce Luz

Tela de Hosmany Ramos - O mundo das drogas (álcool, maconha, crack, coca e heroína)


Foto: Rita Elisa Seda.


os que têm braços
se abraçam a si próprios
enlaçam o corpo
se consolam
ante a morte
colorida
de suas vestes
não é riso fácil
não é riso nem comove
estão no fundo
de poço profundo

onde há verde
há esperança
de riso
humano
irmãos
e veem a mim
sã e salva

sou irmã
na tristeza
no desejo
de transportar
o vermelho incômodo
sangrando a vista

Tela de Hosmany Ramos - Entardecer em Minas


Foto: Rita Elisa Seda.



tantas casas
uma é minha
um doce, meu lar
lar mineiro lar
à minha espera
quando o sol caseiro
de novo brilhar

mineiro chora quieto
labirinto de casas
azul celeste
tons rosados

oh minas
labirinto celeste
nele a alma do mineiro
caminha silenciosa
voa voa voa
e se aquieta
lares, lares
minas entardecer
adormecer
na fazenda mineira

seu interior
me arrebata
nesta cidade
alguém há de ser feliz
comigo -- e há de me querer
mesmo distante
irei em busca
das minas
gerais felicidades
ocultas nos fogões
a lenha a brasa

Tela de Hosmany Ramos - Namorados


Foto: Rita Elisa Seda.



almas gêmeas
idênticos
não se olham
já não é possível
manter o olhar
por muito tempo

suspicious minds
atormentados namorados

ela quer voltar-se
para revê-lo
não o faz
tem medo de sua própria
insensatez

amor doentio

estou na tua vida
para sempre
saiba - este sou eu

permaneça imóvel
à minha frente

estou atrás de você
me conheço
e a mim mesmo
vê mais
do que ela
tem olhos claros
mas nas mãos
o passado
negro estampado

Telas de Hosmany Ramos - sem título


Foto: Rita Elisa Seda.




castanhas pensantes


amontoados cajus
homenzinhos de cabeça disforme
corpulentos
atrás das grades
colados colados

de repente
um deles
cai na multidão
outros, indiferentes

é a vida
não é vida

polpudos

cajus brutamontes
todos frutas
dentro da cela
acastanhados
pelo medo
de lesões na pele
em que se vislumbra
raro brilho
cajus, grades
celas suculentas
colheitas purulentas

presos se espremem
dia menos dia
uma e outra cabeça
num prato
de bandeja

Tela de Hosmany Ramos - Maternidade


Foto: Rita Elisa Seda.



lembra cruz
mas é verde
o amarelo é o cansaço
da espera
o roxo diz
a que vem
um homem
se imagina grande
tem à sua frente
o filho
e suas obras
sua arte

ao lado
faixa vermelha

houve sangue
nessas veias
inflamadas
balança
verde-musgo
pesando os feitos
bem e mal
bem na sua frente

tua lápide
repousa
em paz

Tela de Hosmany Ramos - Teorema


Foto: Rita Elisa Seda.


uniforme branco
negro se sobressaindo
nas formas simétricas
de fundo vermelho
assustando
e não dá cor
biombo preto
o branco pede licença
para se esconder
da vergonha
do passado impresso
escuro feito livro
de terror
lido
aberto
cor branca penetra
o negro do quadro
se impõe

houve branco passado
a limpo
tanto vermelho
impuro
lilás no preto
agressivo
estampado
na delicadeza
e o revés

Telas de Hosmany Ramos - Hipotenusa


Foto: Rita Elisa Seda.



cubos lilases
calados
estratégia

qualquer coisa
solta no breu
da noite negra
da alma

em que você pensava
nessa hora?
controlando a luz
da tela
aquela

futuro
negro
o persegue
assustadoramente
aquarela
parece livros
que lê
histórias de um lilás
incompreensível

poderia ser
espiral sem fim
no entanto
são livros
não são livres

Tela de Hosmany Ramos - Maternidade quadrada


Foto: Rita Elisa Seda.


bandeiras de hosmany


paz
branco em pê
paz
vermelho
paz no vermelho
cobrindo a branca paz
em pê
entre azul e amarelo

mais belo

a mão firme
pinta
o vermelho
num pacto de sangue
e vida
com a arte
mais bela
deixa falar o amarelo
dê voz ao branco
ao azul
ao vermelho
à tinta à óleo
na tela
agora, exposta
se revela
pinceladas mescladas
madrugada qualquer
suficiente
pra dar cor à tela
e a vida
em brancas nuvens
amarelas
o negro se sobressai
a cor favorita
o agressivo o rude
destacam-se no amarelo
desejo de pintar
o mundo em cores vibrantes
atraentes tintas o chamam
à missão
re-missão

Tela de Hosmany Ramos - Planos e cores


Foto: Rita Elisa Seda.


por que tem que ser assim?
por que?
por que?

mesclar tudo
ver no que dá
alguma coisa
de ruim
não tem que ficar

o cinza ficou lindo
em você, tela
saber compor as cores
nos planos
que elabora
mirabola

conduta ideal
compor planos
nas cores
que ignora
amarelo é ouro
fica perfeito
na delicadeza
dos frisos cinzas

cinzas cinzas pretas
não sei aonde ia
tua mente
quando pintava
a solidão
pingo vermelho
quem viu?
apenas um pingo
na amplidão cinza

enquanto minguo
corta a harmonia
algo de escuro
em claras metáforas

mão segura
do artista
emoldurando
tela de roxo-tristeza

feliz com a criação
mais um dia
inaugura

Tela de Hosmany Ramos - sem título


Foto: Rita Elisa Seda.


tempo passa
a quem pinta
aos prantos

rosto
não demonstra
cores escondendo
tanta beleza
amarelo - elo
que falta
não desejo
agora não

vermelho - risco
de sangrar
a qualquer custo

negro - o rasgo
do véu a um passo
na eternidade

abismos
próximos
eu passo
cores coladas
metidas num só quadro
reproduzem
o que vai
e não volta nunca mais
na esperança
de pintar
o que pintar

Tela de Hosmany Ramos - O olhar que pensa


Foto: Rita Elisa Seda.



onde você conseguiu
brilho desse azul?

me empresta
me conceda a honra
desta contradança, senhor azul?

azulindo

tom de azul
encantador
tantas tonalidades
esse azul
cai tão bem
na tua tela

tanto cai bem
que fica
cabeça de cavalo
desponta
dá coices
com a rigidez
da própria figura

nave pousa
amedrontada
com a perfeição
do artista
imponente
por mim
escolheria entre tons leves
rosas azuis lilases
anis anis anis também

em teu desejo
cores fortes
agredindo
encantando
seduzindo
torturando mestres
escondendo chaves

Tela de Hosmany Ramos - Masculino e feminino


Foto: Rita Elisa Seda.


azul e rosa
rosa e blue
rose

não chegam
a um acordo
é masculino
é feminino
quando deveriam
ser um só
olhar
o feminino
mexe com ele
abrange um pouco mais
do seu eu

ele existe
impera
tira coelhos
e olho
da cartola
ampulheta
cartola
tempo implacável
ele e ela
tudo rosa à esquerda
tudo azul à direita

o nada
o branco à distância
olhar estranho
parece pensar
ou pensa que pensa
se faz razão
pra vê-la
de rosa

se faz rosa
pra vê-lo
tudo azul

Tela de Hosmany Ramos - Autorretrato


Foto: Rita Elisa Seda.


hr by hr


retrato de mim
de meus retalhos
ocultos
preso nas paredes
intransponíveis

no entanto
eu desejo

a mim
retrato

agá por agá

tantos pensares
a cabeça se expande
em cores palavras anseios

tantos esgares
a cabeça se divide
em mim
no outro

hosmany por hosmany

cacos na cabeça
cacos na mente
infeliz homem-solidão
esparadrapos brancos
não colam

o nariz sangra
de repente

hosmany por juracy

sopro
no pó
diamante
acariciante
voando
nas asas do relento

filho da mãe
filho do vento

sábado, 16 de maio de 2009

prêmio camões

tudo em mim
sobra

se digo algo
isso é bandeira

se construo barco
antes da patente
barcos na água corrente

se penso
descartes já pensou por mim

mereço prêmio
pelo conjunto de minha sobra

sexta-feira, 15 de maio de 2009

viveirista

produtora
negocio flores
pra atrair
beija-flores

vendo flores
que só vendo

céu é o limite

nascer de novo
é preciso
junco
narciso

voar em borboletas
pelas flores
larvas

beijar o mel
receber chave
do céu

seiva e cerne

italiano, modesto
sangue nas veias
carne viva
bela fera
gente toda vida
enternece

vícios

pegada na areia
restos

dragão
expelindo jogo

rastros
santas diabruras

teddy bear

bicho selvagem
tapete
de astúcia

jogando o jogo

cara
sua torcida é sua cara
seu passe
que você mesmo compra
e vende
a ferro e sangue
seu tapa e o revide
disso ninguém duvide

vem pra fama, pelé

entrou de sola
deita e rola
trocando sempre a pele

no gramado
toca a bola
com os pés
toca o sol
com as mãos

ed mundo animal

abaixo bicho
arteiro
viva esse animal
seu tiro
certeiro

seta
tiro de meta

refeita a fama
deita na grama

malha e tecido, coisa de louco

xadrez
cana
que prende
tudo azul
tudo bem

tua camisa
de força

coro de anjos chorões

algo no ar
choro

mas é música
aleluia alegria
vida sol
salgueiro, chorão

algo angélico no ar
choro

risonha

se rio oceano pleno
me transformo de repente
em gotinha boba-alegre
querendo gostar
só de quem gota da gente

mar de amor

pela poesia
a vida vale a pena

vale pelos filhos
pelas perdas
pelas vãs vitórias
vale pelo vale
vale pelo Vale um Beijo
recebido
no pedacinho de papel
com desenho de uma boca

vale pela lembrança
mesmo se não há mais lembrança
vale pela dor
agora é cicatriz
vale pelas palavras
que se espera ouvir
ou pensamos merecer
quem dera

à luz de castiçais

meus amigos
me sinto só
dor cruel de ser só

ninguém me ama
não tenho mais lágrimas
relógio não me vê
madrugadas frias

me sinto assim
cinto apertado
preparem a mesa
para mim

harmonia

meus filhos dormem
gosto de velar o sono deles
de me sentir mãe

soprar bons fluidos sobre eles
durmam, anjos
boi não pega neném
mamãe não deixa

durmam, anjos
venha, manada
em estado de poesia
sem espada
sem dor
sem sangue derramado
e confraternize conosco
nesta paz
temperamental
quero a poesia
sem intervalo
comercial

por amor

amiga da ursa
amiga da onça
jararaca
cascavel
cão bravo

gatinha
pata a pata
de corpo e alma
brigitte bardot
agora sim
muito mais bela

entrego minha pele
em meus apelos

quinta-feira, 14 de maio de 2009

maio, mês dos noivos

gil
terra
cio
céu sal pimenta
fogo foguinho
que céu
mar
floresta
haja festa
neste dia feliz
que te viu
gil
mar

sábado, 9 de maio de 2009

como se apaga
do coração
um homem?

imagem fixa
de algo
que veio
foi
e ficou

como se afaga
o coração
desse homem?

gôndolas

rima a vida
remando
pra lá
pra cá


rema, rima
traga risos
flores
aos barcos furados
da vida

sexta-feira, 8 de maio de 2009

tamareira
que nunca plantei
envia tâmaras
pra mim

recebendo tanta brandura
sem ter nada a oferecer
mando
lembranças
essa preguiça
no meu galho
me chamando de irmã
num instantinho
quarto de século, talvez
vai soltar minha mão

começar tudo outra vez
não é moleza

dilacere, fotografe

agora deu de lamber selos
ande, fotografe
rasgue a saia-envelope
serei objetiva
não sou o que sou
o que você vê
nem o que dispensa
sou o que aparento
eterno ser

fogo da paixão

leve sopro
carvão
mostra-se vivo

língua de fogo
lambendo a madeira
labaredas subindo
chuva de fagulhas

a brasa
com asas
antes de extinguir-se
nas cinzas
mostra o dom
do amor

tudo além disso

o sol é gay
despiu meu amor
pôs na cabeça dele
coroa de astro-rei

a lua é lésbica
tremenda bicha
me convida pra dormir
me espicha
estrela brincando
na tua mão?

demais esse lero
assim até eu
boba
te quero
seus cabelos
perfumam
a dama-da-noite

perfumam
minha boa noite
figo temporão
eu no gramado verde
sim não não não não
conheço caju
de carne saborosa
sei, sou gulosa
ai, tangerina
se os gomos se dividem
pobre menina
serpente mal
dita maçã ele já vai
tirando casca
li cravo e limão
meu abraço apertado
limando coração
estradeiro, diz
aonde vais amanhã
buscar avelã?
dentro da cesta
mil beijos de damascos
delícia - é sexta
boca madura
lábios aveludados
doce ventura
gotas e mais gotas
de mel naquela boca
rainha louca

segunda-feira, 4 de maio de 2009

pena, pra que te quero?

não vi barata
na careca do vovô

vi pássaro
na gaiola
assim que me viu
não bateu asas
e chorou

antoninho da rocha marmo

chegamos em comboio
lá estava padre zezinho
quis espalhar notícias
do presente do passado
acanhada
não fui até ele
não fiz nada

eu já estava pensando em deus
estava pensando no amor
em estado de
ângelo

alice deu à luz

ângelo nasceu
embrulhei coração
num presente dourado

o bebê abriu meus olhos
no seu olhar
compenetrado

:vovó, qual o babado?
o que esse povo tá aprontando?

enfermeira ensinou ao pai
primeiro banho do neném

na água
ângelo já foi arregaçando
as manguinhas

derramei breu branco

ainda por cima
escorreguei
bati a cabeça no chão

tentei pensar
numa prece rápida
em caso de qualquer coisa
não tinha
nada na cabeça

Allahu Akbar

príncipe à solta
minha tenda
no deserto

foto eternizada
num segundo

per turbante
olhar
por si
revela

luz vidamor

nuvens negras
passageiras
na imensidão
do pensamento vão
orar
Assim também andemos nós
em novidade de vida.
Romanos 6,4


você tem medo
do que aviva
já sabe
comigo
corre risco
de vida

domingo, 3 de maio de 2009

oh susana

linda flávia
doçura de flor
em flor de néctar
suave
pele nave
perfume de flor
flauta doce

sexta-feira, 1 de maio de 2009

sem me encarar

o que olha
seu olhar?

eu olho
suas retinas
dos olhos, as meninas
você, bem-olhado
mal-encarado
só eu
me entrego
peço água
só não jogo a toalha
na lona já estou
há tempos

mas felizes

quando meu castelo
desmoronou
fugi com o sapo
coabitamos
coaxamos
verdolengos
ferinos

doce elisa

vem, elisa
solta os cabelos
descalça os pés
esse chão pisa
devagar

vem, elisa
sorria, vida te chama
pisa na grama
sinta a brisa
de verão

vem, elisa
linda criança
charmosa moça
no meu colo
toda prosa
cheia de esperança

vem, elisa
boneca risonha
sonha, sonha
vida cor-de-rosa
vem, menina manhosa
dorme nesse mar
de amor

doce elisa
manhã primaveril
muitas borboletas

menino de ouro

cresca, áureo
em berço de ouro
carinho
alegria
beleza
cuidados

cresca, áureo
na Luz
nas bênçãos
que te cobre
o bom Pai

cresça, áureo
na inteireza
de sua alma
se mostrando
generosa
desde criança

áureo
tudo o que
você tocar
vai virar

ela não desiste

para, brisa
de me pedir
poema

poema tem que nascer
devagarinho
não às pressas
mas com carinho

para, brisa
de me pedir
poema

poema não é raio cortante
que nasce
num instante
logo desaparece

ele vem de mansinho
suave sopro no rosto
pássaro voltando ao ninho
você nunca esquece
o poema permanece
num beijo, brisa

para, brisa

cara clara

doçura
clarabela
alva manhã
clara voz
de avelã

joão bobo

angústia da espera
ex aspera

vem não vem
bem-me-quer, vem-me-quer
ser não ter
sim talvez porque quando não

joão-ninguém
recolhendo meu coração
da sarjeta

quinta-feira, 30 de abril de 2009

oleandro branco

vizinha (,) espirradeira
não faz mal
planto flor
em meu jardim
ela floresce
em seu quintal

terça-feira, 28 de abril de 2009

(des)crente

aflita
querendo ser cidadã do mundo
tonta
querendo isto, aquilo
vendo bichos em extinção
inerte

enquanto houver matança
fome e tortura no mundo
só à poesia me submeto
só a poesia me converte

benfazeja

poemas caem do céu
alegria em pingos
brotando na terra
o vinde

no coração
brotando desejos ocultos
de viver uma vida
fulgurante
geada
homens dormindo
na calçada

dentro das casas
homens frios

pureza pura

eu o chamava de anjo
ele já era
na verdade
sou mais velha que você
do alto de minha loucura
te dou meu colo
calor

passo noites em claro
penso em te abandonar por aí
como já fiz
com meus cães
e cadelas

acumulo débitos
remorsos

teu sorriso

banho de alegria
se tua vida é tão boa
vamos, me convida
me ensaboa
olhando teu retrato
beijo teu rosto
a 3X4

pescoço de cisne

não é mentira
patinho feio
virá cisne
meu amor é livro
sacramentado
ilustrado
ilustre
festa
só enquanto
fogo está aceso

depois
resta só
a menina
mulher de verdade
quer homem inteiro

esta mulher
se divide
por sua metade
de verdade

ora-pro-nobis

primavera-de-espinho
esbarrei nela
me esqueci
em plena primavera
se
quando
voltar pro seu ninho

solte-se
devagarinho
depois de seu carnaval
rodei
a baiana
tigre no chinês
não te quero meu
te quero seu
nunca mais direi
eu te...
quase
fumaça do cigarro
cobriu meu rosto
meus olhos pediram
pare de fumar

nunca mais
não me julgue
capaz de te fazer
algum mal

não me julgue
capaz
de nada
seus cabelos grisalhos
compreendem
a alma do mundo
nunca fui lá essas coisas
nem sei se fui boa filha
sempre uma pilha
de nervos
jane
sem cipó
salto
a salvo

corbeille

deposito flor
no túmulo
do amor desconhecido

a flor nem nasceu
e já morreu

como este amor
que nem
quando ele vier
uva, videira
recíproca
verdadeira
aterrisse
sem paraquedas
nos meus braços
sobressalentes

jogue-se no mar
salve-se quem puder
ou me dá seu endereço

lareira

venha dormir
e não durma
com marulho desses

manequim

na vitrine
torcendo
pra que arrombador maluco
a descubra
desnuda
a refaça
de mil pedaços

sutil, decerto

há quanto tempo
você fala de você
querendo ser tudo
menos
grito

copo na mão

nada
vezes
nada

nada X tudo

tudo
todas as vezes
verdades inteiras
me derrubam
meia dúzia de palavras
me levam
enlevam

o trem apita

eu, de frente
na pista
querendo me atirar
nas paralelas

os braços abertos
do maquinista

tremendos

avisto três colinas

monte sião
a alma dolorida

monte das oliveiras
ali jesus chorou

monte do calvário
onde seu sangue verteu

maria madalena
enxugou os pés de jesus

como eram os pés de jesus?
e suas mãos?

jesus lia as mãos
de maria madalena

mútuo

deus é bom pai
rouxinóis de outono
torvelinhos de areia
leque japonês, nobre
passeio em damasco
relíquias de faraós
choupana, fartura
trança nos cabelos
indulto de natal

às vezes sirvo
em desespero visível
a dois senhores

eu sabia

meu coração
maluco
cumpre a missão
de me proteger

quer se doar
pobre caduco
me despe
ao seu olhar

solução

também
na cova dos leões
fui lançada

disse a eles
essa lua
esse conhaque
me deixam comovida

por deus
os leões
adormeceram

sábado, 25 de abril de 2009

vide capa

fui retratada pelo amigo
essa mulher da capa
não se parece comigo?

é o meu perfil
e só o amigo viu
essa mulher sofrida
que não esboça sorriso
a quem passa pela sua vidraça
e já não consegue contar nos dedos
todos os seus medos
retraída, a tudo observa
sendo observada
é a vidraça, é a vidraça
sim, essa mulher sou a vidraça

às vezes bendigo esse perfil
outras, ignoro
não, não, eu o adoro
o amigo assim me vê
a outro qualquer
essa imagem escapa
não se parece comigo
essa mulher?

dê uma olhada na capa...

quinta-feira, 23 de abril de 2009

o coração sempre fala
do que enche
a boca

amo
do coração
pra fora
tirar palavras
da ponta da língua

lançar mão
das que [me] travam
no fundo da garganta

hotel marriot

tantas roupas tem
manneken pis
apronta
uma dessas

mini-roseiras

tenho feito
minha parte
cultivando flores
bons pensares

i beg you

não vá
a bélgica é aqui
o brasil é lá
não há mares
só luares
neste vidros e vidraças
telhados de vidro
duvido

vidraça
estilingue
xingue

vidro
de água e sal
cristal

copo americano



um brinde ao brando

assim seja

sejam
primas
as rimas
vicejam

no rio
de minhalma
calma
no frio

oro
choro
e deito

no leito
frio
do rio

transparência

libélula rubra
asas transparentes
medula da libélula

libélula libra
ama a lula
bajula a lua
libélula lilás

libélula linda
não adula
voa, pula
medo da libélula

morangotango

você, cereja
melaço
me enlaço
eu, morango
sem chantili
orangotango
tolo, vulgar
nadando no seu
marasquino

indiferença

tanta mágoa nos olhos
olhos cheios de copos dágua
fonte cristalina
quem bebe dessa água
outras mágoas, outras águas
transparentes

mãos, água entre os dedos
olhos cheios de sal
água gasosa, mineral
quente ou fria
cachoeira fina
pequenina
menina dos olhos
gelada

violentadas

violetas róseas, brancas, mescladas
eram muito gentis. de tão amadas
em pequenos vasos ou mesmo no chão
floresciam na primavera, outono e verão

tratadas com carinho, cada vez mais lindas
eram tudo o que eu queria. tristezas infindas
esquecidas por dias, meses. momentos
em que não podia haver mais tormentos

sem que esperasse vi as violetas
desbotadas, tristes, sofrendo. choravam
em suas efêmeras existências. as auras pretas

o sol surgira subitamente no céu
enquanto as violetas indefesas se inclinavam
meus poemas floresciam em folhas de papel

sereia

grão de areia
oceano de sensações
andando pela praia
consegue definir
novas reações
suaves sensações
esperando a cada dia
mel no sal
no mar
suavíssimo canto
roçar de olhos

abalo

vamos tremendo
de medo tudo treme
o que não treme, geme

o germe geme
como verme vê-me
mulher possuída geme
pisada, treme

navio no cais
meu lema é o leme
minha poesia sofrida
cheia de tremas tremia
eu gemia

prédio treme
gente sob escombros
gemido, tremura
voz sem eco geme
mão atada treme

à prova dágua

ai, o tanque transborda
é noite, transborda o bebê
o tanque geme e a mãe chora
o bebê geme numa mãe que transborda
o tanque chora e a mãe geme
se o tanque transborda
águas turvas descem
se esparramam, ganham o chão
passam pelos ombros, dedos
cantando, molhadas
no tejo que o tanque transborda
na enxurrada de fraldas brancas
sonhos lentos, belos
a mãe chora na fonte
que o tanque transborda
espuma sobe, molha o rosto
olhos transbordam
transbordam braços e beijos
a chama doce e preta do fogão
é labareda que chama, acorda
a mamadeira derretida
ai, o coração derretido
transbordado em gotas
mãos queimadas, queimadas
estão fritas as pomadas
outro bebê a bordo transborda
o leite se derrama no fogo
meu leite é catarata
na boca faminta é chuvarada
a boca desgasta, transborda
mais um bebê gritando, meu deus
e o tanque é regato
quando vira ribeirão
as mães transbordamos

para-quedas

cores vivas
embaraçando
a visão

maré no céu
prazer
nessas cores

abriga sonhos
meus heróis
me abrigam do perigo

aberto
meus olhos
ficam coloridos

no chão
guarda-chuva preto
furta-cor

s.o.s

nem neiva sabia
da seiva na veia
nevava
quando a névoa
cobria a nave
em que navegavam
retinas

vá, nei
neiva na neblina
não vê

rua humaitá

chega de cartas
de baralho barulho
eu via seu sofrimento
minha dor eu via
doía até mais
que dois ou três cigarros
de teu maço o sol ardia teu umbigo
no mormaço eu via gente correndo
pro terraço rádio de pilhas ligado
favela próxima à avenida
trouxa de roupas sujas
era eu essa trouxa

só porque alguém tocou meu ombro
quando passei pela humaitá
como se fosse uma rua qualquer
de maringá
rival veleiro
feito velho vinho vem de tonéis verdes
fazendo viúva uivar
vizinha voar

cascavel suave jasmim
jogando o guizo
jorra sobre meu joelho vil
nem juiz, nem raiz
jangada cavalgante
zangão zombeteiro
fazendo zunzum
no meu ouvido

lendo poemas

se leio drummond de andrade
minto minha idade
entre blush e batom
prefiro rosas rosas
mas eu leio drummond

se leio cassiano ricardo
penso que ainda ardo
mas não tornemos isso público
é publicoso
quando você fala a sério
o riso me intimida
se fala satirizando
me comovo

se leio cora coralina
lembro que tive outra menina
a sua simpatia foi excelente
meu leite secou de repente
outro leite mina
dos meus olhos
da menina

abrindo o jogo

não era desamor
era só cansaço, eu era bagaço
não mereci nem um abraço

havia folia dentro de mim
gente chegando tarde, fazendo alarde
gente que arde

muitos querubins dentro de mim
falando em desejos, dando beijos
anjos sem pejos

você não viu essa malícia
no lençol da cama chamando à trama
eu era dominó, xadrez, dama

reflexo

você segue assim
tonto assim
nem se dando conta
de que flutua
em rios, lagos, mares
buscando cascatas
ribeirões, cataratas
flutuando num oceano

sigo assim
tonta assim
navegando em tantas águas menores
jangadas, as mais singelas
conversando com plantas
ribeirinhas
pobrezinhas
vendo minha face refletida
nas águas de leito plano
no reflexo o sonho
de nadar, me afogar
no seu oceano

última página

olhos carmim
tão tristes, sérios
não entendo seus mistérios
por que chovem assim?

chuva no meu rosto
aperto no coração magoado
choro não chorado
testemunham meu desgosto

ando farta de amargura
tristeza – nada me resta
senão a dor, que me molesta
talvez de minha desventura

minha mão já ferida
tem súbito desejo agora
de virar a página, sem demora
a página de minha vida

meninas e tangerinas

flor da laranjeira. limoeiro
macieira carregada de maçãs.
bananas em festa. coqueiro
meninada. primeiras romãs

nas árvores em que brincavam
meninas verdes, tangerinas maduras
subiam, desciam, pulavam
as meninas verdes eram puras

perto do rio de água corrente
a tangerineira tão gentil implora
reclama muito saudosa. sente

falta de risadas das meninas escuras
tangerinas estão verdes agora
as meninas, muito maduras

máscaras

você reluz
qualquer dia desses
dou à luz
sou sua, sou sua
minhas mãos numa cruz

nas minhas chácaras
muitas máscaras
suas xícaras
entornadas
me chocam

ninguém me seduz
champanhes e chás
entornados
nos meus seios
me checam

etapas

sorria
na folia
do dia

chora
na flora
implora

viva
esquiva
arquiva

morra
escorra
masmorra

ao fogo brando

me pediram poesia doce
geléia de morango
meus frutos estavam verdes

quando maduros, sazonados
fiz doces todos rimados
cocadas, beijinhos, brigadeiros
de versos polpudos, frescos
frutos partidos ou inteiros

rimas artesanais
feitas de doces banais
beijinho de pé quebrado
como caroços ficavam de lado

me surpreendi com cestos diversos
oferecendo doces como quem compõe versos
rimas que não enjoam
doces que não engordam
-- poema não pode ser amargo –
todo mundo ria
ninguém, ninguém queria
minha doce poesia
em banho-maria

bem-querer

quero espelho generoso, não aflito
sem laços, culpas, medos. espelho bonito
sem ansiedade, moral de história
não penso em derrota, nem busco vitória

meu passado de nuvens seja o presente
ninguém venha me dizer: demente
pisarei todos os cacos que me consomem
hoje quero amar esse homem

rodopiando feliz com os braços no ar
vou me imaginar ao som de guarânia ou valsa
cantando baixinho canção que não é falsa

vivendo intensamente o êxtase de amar
quebro o espelho que nunca anima, só tortura:
ambos não somos o que o espelho procura

besos de maçãs

danço tango longo
com esse amigo fanático
que nunca me beija a contento
nos perdemos num tango lento

mordo maçã vermelha
maçã de besos, besos, besos
me lembrando meus avessos
e são apenas começos

tecendo saias e sonhos

na cor anil
bolas, listras
orquídeas no azul
pontos sem til
contos sem fim
agulhas, há mar
nunca naufragar
nos papéis
retrós, carretéis
poucas papoulas
roucas
alguém viu
clodovil

vidros e vidraças

a érico veríssimo


se o escuro chega perto
o mundo é um deserto
sala iluminada
chuva na calçada
nós somos deserto
estremece o que não se esquece
sobrado edificamos
edificamos o frio
anjos petrificando
o vermelho da brisa
horas estatuadas
demônios tão visíveis
o marrom do cobertor
aquecendo a música
gelando nossos pés

por nossa cabeça
rompiam-se fantasmas
tormentos eram dourados
tanta fé nos arrepios
homens tardios
passeiam no teto vazio
velamos vultos apodrecidos
estremecendo paralisados
paralisando estremecidos
voltando a si
choram, entram no quarto
entram na cena, gemem
medo nas vidraças
vidros temerosos
das lembranças futuras
cruéis, duras

garis

meninos-laranjas
vieram garizando desde
o centro da cidade
em frente ao meu portão
pediram água gelada
em lugar de boa limonada

com que rapidez varriam ruas
com que lentidão bebiam água
iam varrendo todos os detritos
a lama bebendo minha cidade
varrendo a água do copo
de gole em gole
esfregando piaçavas
precisando sorver toda a cidade
o país inteiro
varrer todo o globo terrestre
e eu querendo varrer
os suores de seus rostos

suores de meu rosto

ronda

de blusa semiaberta
vejo número da polícia
acaso precisasse

essa minha malícia

quadros no aquário

num quadro filho e cachorro
o pai mostra sua raça
eu, senhora cachorro no zodíaco oriental
babando tanto no ocidental

peixinho beijador
me beijando, beijando
minha cabeça girando, girando
voltando aos pouquinhos
ai, agora os peixinhos
pendurados na parede
perto do armário
os quadros, boiando
dentro do aquário

sinal da luz

jazíamos fartos de jazz e paixão
eu te mandava flores
e recebia caramelos
belas balas
era extremo o seu amor
uma bala atravessou meus quadris
outra, minhas têmporas
eu mal me sustentava nas pernas
você passou primeiro
e fechou a porta
duas gotas na porta da matriz
a gota dágua era da fonte luminosa
a outra, estava por transbordar

descalços

sem pás, pós, paz
no lodo nossos pés
lado a lado no lodo
os dedos duas vezes dez
assim deslizam os pés
os meus vão primeiro
de encontro ao bueiro
na enxurrada

nossos pés
antes tão amantes
nunca derrapantes
de repente
nossos pés
na água salobra

colhendo beijinhos

beijos me sacodem
quando maduras
as sementes explodem

poda

ouvido ouve
lagarta
no pé de couve

filha voa
borboleta
na taboa

olhar brilha
outro reprime
a filha

ninguém louve
lagarta
no pé de couve

bajulação

chega de mansinho
não quer nada
apanha docinho
de milho verde ou castanha-do-pará
não sei o que se passa
pega uva-passa

diz que sou doce
me amaria mesmo se não fosse

outra vez pego você em flagrante
roubando biscoitinho, um beijinho, até
isso nunca é o bastante
vai acabar com déficit na hora do café
quem tem faca e queijo na mão
querendo biscoitinho de parmesão

um dia saio desse fogão
pra aquecer seu coração

espere o creme ficar pronto
tire as mãos daí, meu deus
não gosto desse seu modo tonto
pare de lamber os dedos. os meus!
o creme não compensa

desfaço laço
no seu abraço

pesadelo

te beijo
você beija outra mulher
cabelos longos
pele clara
margarida ou guida?
nos braços dela, preso
enquanto te vejo
dormindo
indefeso

marcas subterrôneas

espeleólogo
tem no capacete
iluminação de carbureto
nem viu meu humor
de cianureto

me promete gipsita
cabelo-de-anjo
a mais rara e bonita

sua estalactite
em confronto com
minha estalagmite

depois vai embora
deixa pegadas
na caverna de meu coração
feito as de um leão

segredo

palma de sua mão
na minha palma,as linhas
na sua mão minha alma dobrada
cauda fina de lagartixa
mexendo entre seus dedos

na correnteza

onde navegas? onde navegas?
em qual regato de águas mansas
onde navegam crianças
em barquinhos pequenos
ai, quantos acenos
até meus pés desejam se afogar?

em qual rio de águas turvas
tortuoso, se escondendo mata adentro
com plantinhas verdes
que rapidamente desaparecem
e minhas mãos não conseguem segurar?

tenho navegado, sim, tenho navegado
em oceanos de águas turbulentas
caudalosas
majestosas, violentas
com ondas vultosas
escandalosas
tão azuis que os azuis de meus olhos
não podem avistar
e meu navio está prestes
a naufragar

temporã

te busco hoje se ainda
amigos somos
tomo suas mãos
apertando até sangrar
vendo meus lábios
vermelhos desses gomos

cultivo no peito
fruta silvestre
rompendo em brotos
planta agreste

paixão lúdica

não atinava esse meu destino
pensava: era sina de menino
pipa no céu, pião, bilboquê
eu até brincava com você

mas o amor que nos emaranha
amor – coisa mais estranha
me pôs sonambulando aos sóis da vida
teia de lágrimas, eu só envolvida

com surpresa, sem beleza
era o fim da realeza
não há nada, não há nada

meu corpo como que num cemitério
seu pião, pipa eram algo sério
não há nada, não há nada

capas & caras

capa de couro
cara de cristão
anel de ouro
gesto de irmão

capa de chuva
cara lambida
adoro luva
adoro bebida

capa plástica
cara de artista
mão elástica:
é dentista

capa de pelica
cara de pelanca
unha que belisca
olho que põe panca

descuido

mal te vi
pintou em meu ventre
bem-te-vi

fios tensos
carregados
de sonhos meus
suspensos

rio amazonas

nenúfares.
vitórias-régias.
pescadores.

rio caudaloso.
tormenta.
embate das águas.

nenúfares.
vitórias-régias.

toda ouvidos

ouço meninas
nas campinas
ouço grilos
nunca tranquilos

tudo ouço
caçamba no poço
ai matinal
no hospital

de súbito ouço
acelerar
meu coração

moço
palpitar
de emoção

soneto de nossas mãos

quando me invade a amplidão
recosto a cabeça em seu ombro
suas mãos procuram as minhas, sem assombro
se embrenham em meus cabelos. então

como duas rolas minhas mãos lobas
procuram no ato seus cabelos
nossas mãos tornam-se dois novelos
nos tocamos a quatro mãos. bobas

com toda ternura no leito
minhas mãos procuram sem pudor
suas mãos, seu peito, seus cabelos

depois suas mãos procuram meu peito
e os dois encontramos cheios de amor
nossas mãos, cabelos, peitos e pelos

mancha negra

dizia: não me desmancha
me pedia água e não tinha sede
você me alertava do perigo da mancha
perigo era a mancha na parede

contágio

se há algo que não se atura
é ver fechada uma porta
se nada neste mundo dura
de resto, que me importa?
toda jura pode ser pura
meu coração a todos comporta
por que me chama de inocente?
agora já sou gente

me dá sua língua
tenho meu lado patético
mas minha alma míngua
seu jeito estético
me faz mal, minha voz finda
sensual seu corpo atlético
não duvide de meu dom artístico
não deboche de meu senso místico

me chama de menina
me contamina

grafite sem limite

pixaram o muro
o orgasmo é uma boa
fico pensando à-toa
numa canoa furada
no meio da lagoa
quanta gente
parada

morcego

vem consumido
me consome
não sei seu nome
com gosto
deixa marcas no pescoço
na calada da noite
abre asas besuntadas
me empalha

cães e gatos

gatos escaldados, vadios
não saem de nossos telhados
estão miando... ai, miados macios
nos roubam o sono. nós acordados

tantos gatos engatinhando
em telhas novas ou velhos telhados
de um salto no muro, miando
encontram outros miados

gatinhos não cometem enganos
são mimis, filhotinhos pacatos
quando ficarem velhos bichanos
ouvirão alguns desacatos

oh, somos dois gatinhos
vivendo sob velhos telhados
à procura de nossos caminhos
vamos latindo ouvindo miados

mao faz bem

mao pensava na morte
não fazia drama
hoje mao dorme
na cabeceira
de minha cama

terça-feira, 21 de abril de 2009

jasmim-dos-poetas

perfume
permeia
meu ser

olhar roça
minha pele
aflorada
à flor de mim

vale ver-te vivo

nada de romance
virtual
nem que eu erre
fora desse amor
pontocom
pontobê erre

um vapor, a vida

rastro apagado
na areia
a vida não deveria
ser engrenagem
moinho

tanto para nada
e fora dos eixos
talvez caminho

espelho inca

imagem no espelho
amostra de quem sou
busca pelo olhar profundo

garganta quer calar
o silêncio
sempre
grita mais alto

nunca mais

não entendi tal sorte
sangue na avenida
suporte

a dúzia é doze

quero uma dúzia
disse bem alto
passantes ouviram
e riram

dúzia
doce
tão cheio de si
tino comercial
digo que te amo
você diz
não tenho culpa
é normal

creio nele

abaixa
alça do sutiã
só a textura...

não creio nele

tire a blusa
só quero sentir
a textura de sua pele

nada mais
eu juro

transferindo
pra mim
tatuagem
de duende e dado
de seu ombro

palmas

desenha a própria mão
e a folha outonal
flutuando nas asas do vento
vem cobrir
meu coração

como dorme este bebê

acorda, anjo
olha, se vê
não vê que você
pega você mesmo
brincando de pique?

vá catar coquinhos

desisto
depois de tanta birra
você ainda acredita
se a gente não chora
não implora

duende e fada

não digo nada
pare de me beijar

onde vai dar
esse labirinto?

vamos fazer
acordo
de cavalheiros

fale comigo
de homem pra homem

mel

colibri
volta pro teu jardim
dizendo assim
aqui é meu lugar

colibri
volta pro teu (próprio) bem
dizendo a esse alguém
no seu lugar
aqui é meu jardim

seja pequeno pássaro
imenso em perdoar
seja, sim
assim seja

via postal

cruzeiro do sol
constelação
de um mundo
sórdido

cravada em nossa bandeira
mesmo que você não queira

pena
todas as estrelas
sobre nossas ombros

risos de asas

abre asas
borboleta amada
amarela
tons claros
diante de meus olhos
satisfeitos

butterfly, todo butterfly
voa para longe, muito longe
simples borboleta
sempre

meu ben

ben, meu príncipe pleno de melodias
em seus cabelos revoltos
ben, ouça, sou toda ternura
ritmos vejo em seus dedos
distantes de mim
dedilhando o piano

ben, príncipe de luzes, doçura
o piano geme sentindo sua falta
nada é como antes
teclas solitárias, mudas

ben, acorda de teu pesadelo
revive a música
juntos compomos
sonharemos lado a lado
juntos ficaremos
para sempre, ben, suave melodia
de liberdade
em minhas mãos tua salvação
vice-versa

favor não mexer

deixou tudo
a meio termo
mãos que teciam
foram embora

lãs se entrelaçaram
fios claros nas mãos aquecidas
misturados aos verdes

desistiu de tudo
a tecelã
com certeza
voltará amanhã

canja vegetariana

este poema é canja vegetariana para um doentinho
olha o aviãozinho...


meu irmão
tua ausência esteve presente
a todo instante

acorde levante
abra os braços
saúde o sol
abrasante
curando teu couro

calma
amanhã é outro dia
com ele há criança

irmão meu
fiel amigo
te espero
te guardo
te saúdo

contigo longe do paraíso

eu pensava
que você ziguezagueava no limbo
da poesia
aquecida na luz

que dizia palavras duras
mas não havia
dureza em seu olhar

que selava seu destino
com desejos de vida autêntica
íntegra, fé em deus e fé na tábua
da Lei, pé no chão

que não dava ouvidos à voz
te sussurrando
isso eu já sabia

que o anjo em você soprava
ao meu ouvido
templo aberto às suas palavras
com aroma de liberdade e justiça

que você plantava e colhia
Beleza, Verdade
nas músicas
das esferas

que você era
agora não há mais convicção
eu pensava que você era Dimas
o bom ladrão

ele sempre tem razão

gato manhoso
esperto
vem
miando

gato mandão
vai dormir fora
no sereno
sem colo
sem calor
sem ração

filha de eduardo

rosa teu vestido
sentada em mesa esplêndida
pezinhos descalços

rosa teus sentidos
delicadas mãos
rosa-bebê
rosa shocking
rosa teu corpinho frágil
cabelos macios

rosa teu vestido
de princesa
graziella, tua beleza
põe mesa

graziella, a bela

puralegria
enfrente a vida toda
em berço-nave
coraçãozinho de ouro
reluzindo ao redor
aquecendo minha alma
afastando a dor
oferecendo a paz
cósmica

varrição

o vento bateu na árvore
varreu varreu varreu
frutos apodrecidos
flores duras
folhas secas
galhos tortos

ah quem dera em minha vida
esse vento furioso
varrendo de mim
tudo o que é seco
morto
estéril

gosta de brincar na chuva?

gosta de brincar na chuva?
não tem medo?
me preocupo
em vão

gotas escorrem dos cabelos dele
pelo rosto deslizam
bem sei: lágrimas endurecidas

gira em círculos na chuva
nem ouve
enxurradas de palavras
em forma de poesia

saidessamor

pavilhão dos olhos verdes

todo verdura
esses olhos

da esperança
transparentes
dizendo a todos
somos verdes
estamos

ficamos assim
verdolengos

quatro anos se passaram até o sol voltar a queimar sua pele

com quem amo

luzes fortes
chácara em itanhaém
bonita mulher
olha pra frente e vê
algumas cartas, escovas de dentes
tem todo o direito de viver
malditos momentos tristes
mesma direção e sentidos contrários

embaixo dos cobertores
basta! eu quero paz!
a princesa havia se tornado
uma sereia
dias foram passando
vira o rosto e vê
não sabia o que havia acontecido
com o tempo
claramente o caminho
aparece e
com o brilho de suas joias

(baseado na prosa de carlos eduardo pereira dos santos)

tesouro de asas

eduardo, asas de tesoura
cortando ares da imaginação
planando sobre oceano de dor
mergulhando em bravas ondas, bravatas
tantas palavras

eduardo, olhos de tesoura
veem so(m)bras atirando-as longe
se fazendo Homem Novo
arco e íris surpreendem
arco e mecha
treva e luz
num duelo permanente

eduardo, dedos de tesoura
tatuando na pele de cada um
por onde passa
impressão digital
marca da fera também ruge
não passa despercebido
tanto e tão é você
eduardo
alma de ternura

eudardo, coração de tesoura
coração pensante, cortante
mente cordial
cordial amante
não desfolha
pétalas da SENDA te chamando
eduardo
eduardo
eduardo

imagino

(eu e) você no banho de sol
tua solidão
me dói
sangro sem socorro

amigos para sempre
diz você (e) daí

boneca de corda

boneca
dizendo sim sim sim

à vida
esperança
poesia
ao vir-a-ser

boneca Queridinha
do papai

ceps

descansava o corpo
sem camisa
mente voando em delírios

olhei de longe
em seu braço direito
bela tatuagem

dragão?
sereia?
beija-flor?
coração flechado?

meus olhos acariciavam
tatuagem difusa
não a distinguia

estávamos longe, bem longe
a 90 km anos-luz de distância

preso pássaro

menos cartas, agora
vejo você cristal
tão fino, mas tão fino
se eu fizesse assim, olha
pra ouvir o seu som
pronto: você se quebrou

a mim

quando escrevo
poema pueril
penso na bondade
das palavras

vinde às minhas
palavrinhas

pt saudades

não chegue tarde
pode ser perigoso chegar de madrugada
existem muitos pirilampos
alguns dormindo na calçada
nao sei se minha paciência te perdoa

nao sei se te espero
tua companhia me faz falta
como água-de-colônia faz falta
sem você ouvirei passos lá fora
as pegadas no chao vão me lembrar
cão raivoso
o cão parece o vento assobiando
na minha janela
vento me faz sentir frio
frio me leva junto de você
que é meu cão raivoso

pode ir, mas não chegue tarde
cuidado com excessos
tranque aqui seu passado
pegue sua agenda na estante
pegue um pouco de vergonha

novos brilhos

hoje queria mudar meu rumo
meu tom de voz agora é manso
não sei se rima com descanso

hoje não vou sacudir meus filhos
por favor, andem só nos trilhos
meus olhos estão cheios de brilhos

preciso mudar meu rumo
tocar suas mãos, oferecer as minhas
suas mãos são ervas-doces, as minhas, daninhas

ah, se me chamasse rosa
eu seria muito carinhosa
hoje eu queria me chamar rosa
se é pra falar em anjo
vou falar em laura
sim surpresa
ternura beleza
encanto de estrela
vaidosa coisa e tal
alegria em conhecê-la

o que conta

tua graça
charme
toda carinho

teu sorriso
em forma de coração

pura magia
laura contagia

segunda-feira, 20 de abril de 2009

vibrações

abro chuveiro
meus olhos jorram
fico horas a fio
procurando a água
encontro só angústia
banhando
poros fechados

banheiras vibratórias
me convidam
não resisto
fecho o chuveiro
secando olhos
acariciando, sentindo
toalha felpuda, morna
me aliviando
tensões, tendões
quando saio
do sonho de espuma

ansiedade

se me alimento
do néctar das dores
não vejo remédio
pro tédio
das flores

leio num instante
todos os livros
da estante
amado, drummond, bilac
depois
triac

a alma flutua

a alma é sublime e danço congo
para a poesia que flui como pluma
depois a sopro – tudo espuma
eu sonho longo

a alma é serena e embargo
tristezas brindando alegrias
afogando mágoas que povoam meus dias
eu sonho largo

a alma é nobre e mordo
versos, reversos com fome voraz
degustando todos de forma loquaz
eu sonho gordo

a alma é bela e se expande
esse mundo – a quem pode atrair?
sei que serei nada quando partir
eu sonho grande

biografia de juracy ribeiro

pedi pra nascer no dia 15/10/58 em maringá, paraná e herdei o nome do primeiro maringaense. nome dúbio me hermafroditou com o pó de maringá deixando poros e cérebro impregnados e passei a ver tudo roxo-avermelhado.

multimilionária, tenho diamante sendo lapidado, ágata-elisa, alice-aliança e rubi-rubem. também dentro do peito, água-marina. tenho lápis-lázuli cravejado de grafites brilhantes. furta-cores, porém.

meu nome vem do tupi, yura (concha) + cy (mãe), ou seja, mãe das ostras. sou ostra buscando ser mãe das pérolas. rude, colar cheio de palavras tontas. rolem as contas.

domingo, 19 de abril de 2009

ah laura
estivesse eu aí
ao teu lado agora
te pegaria no colo
te contaria
contos mágicos
ou apenas uma história
de menina conversando
com sua boneca
depois
eu, muito confusa
diante de tua soneca
já não saberia mais
quem é a menina
quem é a boneca

close de laura

flores na blusa
flores nos cabelos
cabelos lisos, macios
sorriso fazendo ouvir
alguém dizendo:
agora é minha vez
no coraçãozinho
grande coração
ela diz a que veio
abram alas

blossom

vida brotando
por encanto
flores desabrochando
em blusas, cabelos
enfeitando a vida

suavidade
tão suave é você, menina
muitos frutos virão
-- também doçura natural –
para a felicidade
de você, seu pai

botão em flor
razão de tanta esperança

menina-jardim

princesa do rio
usa tiara de flores
toda perfume
seu destino
está selado
nas torres dos castelos claros
onde princesas feito você
nunca estão em perigo
só ao calor do abrigo
da luz de deus

flores e pólen nos cabelos

papai, me apresente laura
já conheço
anjo de candura
usa roupas de flores de luz
tem sorriso de doçura
olhar inocente
sem querer
cativa a gente

laura, órfã de mãe

não pode ser órfã
uma criança
com a mãe presente
apesar da ausência física

mãe que arruma
a roupa da filha para sair
acaricia os cabelos claros
com ternura
dá bronca
se ela se atrasa

Cachinhos de Ouro - Juracy Ribeiro - Editora Brasiliense

Sr. Editor,

Vi o regulamento de um Concurso de Contos Eróticos promovido por essa editora e, respeitosamente, dirijo-me ao senhor para fazer algumas considerações e sugerir uma mudança no tema, se ainda houver tempo.
Como dizia Jack, o estripador: vamos por partes.
Não quero julgar as pessoas participantes de um concurso dessa natureza, mas eu jamais participaria, mesmo que fosse por uma causa nobre. Aprecio contos e poemas românticos, leves, amorosos. Contos são libélulas esvoaçando nas páginas dos livros. Veja Cecília Meireles:

“É a menina manhosa que não gosta da rosa
que não quer a borboleta porque é amarela e preta
que não quer maçã nem pêra porque tem gosto de cera....”

Ou Clarice Lispector, ou Emily Dickinson. Todos temos uma missão a cumprir, e a do escritor é deixar algo assim para a humanidade. Escritos que possam elevar o espírito, não derrotá-lo. Não concordo com o erótico por causa disso. A pessoa vai lê-lo e poderá, se for fraca da idéia, excitar-se, e isso não é certo.
Veja também o poema de Milarepa. Uma jóia rara:

Isto mostra a ilusão de todas as coisas
Isto mostra a passagem de todas as coisas
Pense, e então praticará a lei e a consciência.

Ou de Rudyard Kipling:

Shere Khan, o tigre
adoraria pegar Mowgli
mas Mowgli está a salvo
com Baguera .

Que maravilha! O conhecimento que tenho no ramo literário não me permite ainda escrever textos que enobreçam assim. Sei tudo sobre literatura infantil, modestamente posso dizê-lo: Alice no país das maravilhas, Cachinhos de ouro, As dez maçãzinhas, Aladim e a lâmpada maravilhosa, Chapeuzinho Amarelo. Conheço também alguns livros bem escritos, como A teus pés, Mar paraguayo, Vidros e vidraças — um livro à prova de pedradas, de uma desconhecida. Aliás, a pessoa menos importante de Goiás.
Não, senhor editor, esse concurso não pode seguir adiante. Tantas pérolas verdadeiras.

“Não desperte o meu amor até que eu queira.”
“Eis que és formosa, amiga minha”.

Outro dia num consultório médico (uma raridade: o médico se atrasou), vi um guia de vídeo. E fui folheando, folheando, enquanto aguardava. Numa página, vi um certo filme em que havia duas mulheres com corpos esculturais. Estavam ajoelhadas (tem que rezar?), e uma pousava a mão sobre o ventre da outra, perto do púbis. A loira — uau! era loira — tocava levemente o seio da outra, sua gentil parceira. Eram muito bonitas e tinham seios grandes com mamilos rosados.

“Não olheis para o eu ser morena.”

Seios claros, claros. A loira chamava-se Dina (vi na sinopse) e tinha os seios em forma de gota. Que lindos! Que amor!

“Os teus dois peitos são como filhos gêmeos da gazela, que se apascentam entre os lírios.”

Uma suavidade imensa invadia as duas, e um tesão muito grande tomou conta delas. Fiquei perplexa. Qualquer pessoa que visse aquela foto tão bem-feita gostaria de ter uns seios assim. Algumas na boca, sem dúvida. Que desespero. Havia um espelho atrás delas que mostrava suas costas. Um primor! Espáduas suaves — linhas femininas —, formas leves, bumbuns arrebitados. Nuas, nuas. Como pode? Na mesma página, vi essas mulheres noutro filme. Estavam dentro de um carro. Sentadas, seminuas. Ambas com cabelos longos quase cobrindo os seios grandes, e tinha os lábios entreabertos. A loira devia ter uns quarenta anos, e tinha um rosto agradável de se olhar.

Não sei se a deusa sobe à superfície
ou se apenas me castiga com seus uivos
da amurada deste barco
quero tanto os seios da sereia *

Ela usava uma luva branca na mão direita (luva de pelica! Só podia ser) e oferecia o seio à outra com dois dedos, como se dá de mamar pra criança. Quanta gentileza! Que bondade! Seios cheios. Leite e mel. Tetas tentadoras. Língua próxima. Saliva. Gemido. Uma deusa. Uma deusa. Um de filme de amor. Virei a página imediatamente. Eu não teria coragem de fazer um filme assim. Ou um conto.
Senhor editor, reflita enquanto é tempo. Eu lhe peço por favor. Lembre-se: “Já Bocage não sou. Rasga meus versos. Crê na Eternidade”.
Que proveito eu teria participando de um concurso assim?

Assina a leitora,
Margarida Souza


*Ana Cristina Cesar.
eva


deixo roupa velha
quero novinha
em folha

sábado, 18 de abril de 2009

sweetie

laura, laura
laurinha
cute child
confiante na vida
criança feliz
me põe a cantar
alegre
a embalar

sexta-feira, 17 de abril de 2009

não é poesia
o que escravo



nada do que sol
brilha



aqueles jogos – brincadeira
de nossa infâmia


a vida me deu de presente
selo carimbado



ele nada
nada contra o rio



tremendão
erasmo


amor desperto
meu amigo Roberto
estou amando loucamente
namoradinho de amigo meu



bico dos seios
boca nos bicos



deixarei avisos
no quadro



ele meu poema lê
utererê utererê


hímen
sapiens


morro
por querer viver
ser mais feminina
sonho de menina


olho horas em brasa
ele sempre se atrasa



macho e fêmea
alecria



um sonho
assanhada


limpar vidros
embaça



intuição feminina
duvida, se quiser
teu beijo
servidão


cai neve lá
se aqui nevasse...



cada um dá o que tem
tenho dado




coração pulula
ula ula ula ula


passeio a pé
beijo, até



masculino, ô
feminino, ô
nu, nulo
honolulu



taboa no pântano
lavadeira na tábua




tua boca doce
colmeia




sou bela fera
carranca feminina de narciso



entregue
entre cruz e espada


cicio
no cio
fruto maduro
aprendo com raízes


lua brilhosa
generosa


algumas vezes sou insensata
outras, terrivelmente apaixonada



matarei meus defeitos
pegos em flagrante


tento ser versátil
não é fácil



falo
boca
síndico ri pra mim
sindicamente



chope gelado
amigo quente


teu perfume
nariz rastreando nuca




palavras amontoadas
difícil descarte




punhal afiado
poema infiel mata



tenho muito o que chorar
nada me consola
amigo, toque aqui
não na mão: coração


ciclo vital
minha bicicleta



pai, aguente firme
firme, forte


meus cabelos não crescem logo
adoro cabelos longos



espero sua carta
de olho no carteiro



dor pungente
agente
na uteí minha dor
desenganada



anel de pérola
vida cultivada


enfim sós
afins



amamento meus filhos
-- eis a recompensa



depois que você se foi
transfusão de sangue



por deus eu juro
dedos cruzados
gato no muro
ai,que susto



a gata deu cria
filhote natimorto


eu tinha coração de manteiga
ricos tempos!



caderno de anotações
impensadas ações


se fomos felizes?
perguntem às avencas



vi lágrima de ana c.
na página dispersa
toalha branca rendada
bandeja de frutas



meu querido
diário

mudei meu chamadoiro
tempo de mudanças




em tudo o que há
aids



correio sentimental
tal o meu sentimento



li alma de lyra
no elepê
joga pedras preciosas
na geni



marina morena
obrigada, caymmi




estante cheia
mente tagarela



partir hoje
não mais voltar




dizer pouco
até emudecer



lígia, lígia, lygia
eu ia me chamar lygia
discurso de puta: devo, não nego
pagarei quando foder



escravos e escravas no canavial
orgia, bacanal


folha branca, caneta azul
pra mim é o céu



forma, sombra
fantasma assombra


eu, de lua
ele, de sol e lua




uma rã mergulha
tento salvá-la
cão lambe meu rosto
você morre de raiva



estou com você
e abro


vento venta
viro o rosto


patada, coices
cavalo!


não dou conselhos
me dá? dou de ombros


sinhá moça
leite moça
furto a rosa vermelha
de vergonha



minha glória





vale
um beijo


olhos vendados ante o morto
deus é perfeito



eu
maga´


fico fora de órbita
sono sideral
tinta no tinteiro
trapaceio


dor eu dispenso
ah, a poesia



cedo tarde
noite


namoradeira
sob a cerejeira


menino travesso
não me vire do avesso


lembre-se: vendo gato
por gato
gil
aberto


sou fútil
inútil?


almas gemem
gêmeas


diga lá
alá



seu olhar me queime
venus was her name



caetano vê
zeloso
sansão e a força
de dalila



tenho alvorada
não quero mais nada


coração aos pedaços
na tua bandeja



amor
moon...



sou 100%
mentira



aninha se aninha
sinhaninha
no túmulo
o cúmulo


sou boa filha
sigo a trilha


cantiga
de nanar



fui de cama e mesa
saltei pela teresa




leia o poema
na sua cabeça, diadema


ser poeta tortura
doidura
um menino chorão
chico buááá


amor vinho prazer
mil e uma noites


essa bola
que chicle!



Onça tigre leões leopardos
feras mansas comparadas à você



conto com você
neste conto



de cachoeiro do itapemirim
escreve rubem-rouxinol
manha de ser
amanhecer



além da colina
paulo colina



sarna pra me coçar
vê se não irrita


seu doce manuseio
mão no seio



vi seu coração
visível


montanha rio monte
conte mais, conte
cigarra
sim, garra



mote
morte




batom
no condom


imagem congelada
polvos congelados




para quem crê
crepúsculo




vivo só
sem pai, nem mãe
desprezo
vende-se gelo



plááá!
plátano



cama
quase



sacar
com o soco



mergulho
só engulho


artificial lã
à luz da lamparina

quarta-feira, 15 de abril de 2009

ivo bay müller

deus por todos
ivo by me

batismo de fogo

escrevi seu nome
a ferro ardente
no meu rosto frio
in nomine Patris
et Filii et Spiritus Sancti
como sinal
de minha febre

aprendiz herege
pra mim tanto faz
te marcar também
pra sempre, eternamente
na face de meu poema
ou na poesia de sua face

generosa em fogo
te despertarei
com brasa acesa
no seu lindo rosto

meu homem

será meu deus
seja alá
quem for

mãos de mestre

mando carta
bomba! bomba! bomba!
ao abrir
suas mãos se desfazem
nos meus beijos
muchos muchos besos
kisses many kisses
muitos muitos beijos

num doce caminho
suas mãos se refazem
generosas
aveludadas
maravilhosas

em linguagem cristã
um carro-bomba
eu, suicida
querendo morrer
de prazer
em suas mãos

escultor

rude
bruta
em suas mãos
delicadas
sábias

entalhe essa madeira
por um dia
ou uma vida
inteira

séculos mais tarde
ainda ouvirão de mim
canto dos sabiás
falando de amor
aos manacás
dentro de meu templo
te aguardo
noiva
silenciosa
fora do juízo
você trabalha com palavra
tenho medo dela

sim, arma que trago
afiadíssima
na bainha

não tenha medo, amor
prometo deixá-la sempre adormecida
mesmo que cutuque
esta onça
com palavra curta
deixemos nossas mãos
-- esculturas --
falarem por nós
seja lá
o que eu tenha dito
é sempre voo
de mosquito
me abraça
               como a um amigo

me reconheça
              como a um inimigo
vou dormir
não é tarde demais
meu coração
não está comigo

deixarei meu peito aberto
pra que entre
sem bater

presente dos céus

quero agradecer
mas não tenho lágrimas
entende quando meus olhos, mãos falam
descobriu códigos secretos
meu coração revelou-se
às claras

mostro a língua

até minha língua
promete fazer tudo
pra te agradar
vai pensar
duas vezes mais
antes de falar
quero te dar
se não for
pedir muito
algo em evolução
nesta natureza

seu sorriso
pura beleza

domingo

ele toca
a campainha
eu
salivo

político

placa
PARE
mas ele é homem
de ação
não de palavras

logo ri

harmonia

amai a todos os druidas
as sereias
ondinas
salamandras
fadas
bruxas
ninfas
santas

todas me habitam
e uma
às outras

reviva

esculpe
em pedra sabão

pedra exposta
toma forma
quando me toma
nos braços

viva a morte desta pedra
agora em forma de coração
dentro de meu peito

viva a vida
suas mãos criam
viva! viva!
minhas mãos
acariciam
meus seios

enquanto você não vem
minhas mãos
em vez das suas
me aliciam
por outros meios
formigas
nunca mais cortem
folhas das roseiras

tirem espinhos
para proteger
a estrada dele

cubram o chão de pétalas

formigas, rainha, operárias
quando ele passar por aqui
façam reverência
como a um príncipe
de um reino
há muito desaparecido

na barbearia

eu fazia sua barba
com todo cuidado
medo de cortar você
espuma em seus olhos, boca
demorar ali
era o grande desejo
sem barbeador moderno
fio da navalha
esmero da barbeira
vez em quando
minha mão roçando seu rosto
eu beijando espuma
grande traidor, facínora
me dilacerando
com seu desdém
y mujeres, mujeres
você me convidando pra dançar
no grande baile dos hipócritas
onde o homem que eu amava?
barbazul, barbazul
eu dormia a seu lado
era um sonho e tanto

ninho

tomo em minhas mãos
pássaro com voz humana
soprando em meus ouvidos
estranhos poderes mágicos
senão vejamos
entender como é feita
pétala da rosa
me conceder dom
de colher fios de ouro
dos raios de sol
tecer uma rede
para capturá-lo

trazê-lo no bico
ao seio