terça-feira, 19 de maio de 2009

Tela de Hosmany Ramos - Olhar na multidão


Foto: Rita Elisa Seda.



coração de menino


ele - incógnita
impossível saber
que pensa, sente
sempre de costas
a quem o olha
esperando compreender
coração
coberto de gelo
derretível
meu eleito
e tantos anônimos distantes

meu coração chora
estamos juntos
numa tela retratados
nós - você e eu
esperança
sob manto pura emoção
vermelho
tantos rostos
na multidão
ela vê
só um
olho no olho

mostra os lábios
vermelhos
sérios
dez homens
abraçaram
beijaram esta mulher

ele conta os homens
um a um
dez pretinhos

mulher atenta
julgando
condenando
apenas com olhar

Tela de Hosmany Ramos - Família


Foto: Rita Elisa Seda.



feto no regaço
da família

repouso
merecido
nunca houve
e a inocência
a mãe
olhar perdido
vê o filho
cor-de-rosa
recém-nascido

mão espalmada
no peito do pai
pura gratidão
aos céus
a ternura do filho
para com os pais

por favor
a volta ao colo
abrigo do útero
almejado
para o retorno
mais puro mais puro
pai escuro
mãe clara
filho rosado

sono profundo
adormecido
em colo esplêndido

Tela de Hosmany Ramos - Fazenda mineira


Foto: Rita Elisa Seda.



homem entre bois
não há diferença

sombra dos bois
sombra do homem
não há diferença

vida segue
para os bois
tanto quanto para homens
na sombra
vida singela
dia claro
céu muito azul

mastro se mostra
pinheiro verdes

ruminar a vida
tão distante
tão de perto

perdão mútuo

perdido entre bois
novilhas
casa da fazenda
antena

encontrar-se um dia
com o antigo dono dos bois
ser capaz
de fazer acordos
de cavalheiros

Tela de Hosmany Ramos - sem título


Foto: Rita Elisa Seda.



seres suplicantes
uivando
desesperados, solitários
ao deus que imaginam
tê-los abandonado

faces aterrorizadas
bocas se abrindo
esperando maná

rangendo dentes

ele e o companheiro
desgraçados
sofrendo o mesmo tormento

passarão a vida
condenados
ao inferno

eles próprios armaram
perdão, Pai
arrependimento nos aniquila

perdão, Pai
que notícias boas nos traz?

dá-nos Seu Veredito
dá-nos Sua doce Luz

Tela de Hosmany Ramos - O mundo das drogas (álcool, maconha, crack, coca e heroína)


Foto: Rita Elisa Seda.


os que têm braços
se abraçam a si próprios
enlaçam o corpo
se consolam
ante a morte
colorida
de suas vestes
não é riso fácil
não é riso nem comove
estão no fundo
de poço profundo

onde há verde
há esperança
de riso
humano
irmãos
e veem a mim
sã e salva

sou irmã
na tristeza
no desejo
de transportar
o vermelho incômodo
sangrando a vista

Tela de Hosmany Ramos - Entardecer em Minas


Foto: Rita Elisa Seda.



tantas casas
uma é minha
um doce, meu lar
lar mineiro lar
à minha espera
quando o sol caseiro
de novo brilhar

mineiro chora quieto
labirinto de casas
azul celeste
tons rosados

oh minas
labirinto celeste
nele a alma do mineiro
caminha silenciosa
voa voa voa
e se aquieta
lares, lares
minas entardecer
adormecer
na fazenda mineira

seu interior
me arrebata
nesta cidade
alguém há de ser feliz
comigo -- e há de me querer
mesmo distante
irei em busca
das minas
gerais felicidades
ocultas nos fogões
a lenha a brasa

Tela de Hosmany Ramos - Namorados


Foto: Rita Elisa Seda.



almas gêmeas
idênticos
não se olham
já não é possível
manter o olhar
por muito tempo

suspicious minds
atormentados namorados

ela quer voltar-se
para revê-lo
não o faz
tem medo de sua própria
insensatez

amor doentio

estou na tua vida
para sempre
saiba - este sou eu

permaneça imóvel
à minha frente

estou atrás de você
me conheço
e a mim mesmo
vê mais
do que ela
tem olhos claros
mas nas mãos
o passado
negro estampado

Telas de Hosmany Ramos - sem título


Foto: Rita Elisa Seda.




castanhas pensantes


amontoados cajus
homenzinhos de cabeça disforme
corpulentos
atrás das grades
colados colados

de repente
um deles
cai na multidão
outros, indiferentes

é a vida
não é vida

polpudos

cajus brutamontes
todos frutas
dentro da cela
acastanhados
pelo medo
de lesões na pele
em que se vislumbra
raro brilho
cajus, grades
celas suculentas
colheitas purulentas

presos se espremem
dia menos dia
uma e outra cabeça
num prato
de bandeja

Tela de Hosmany Ramos - Maternidade


Foto: Rita Elisa Seda.



lembra cruz
mas é verde
o amarelo é o cansaço
da espera
o roxo diz
a que vem
um homem
se imagina grande
tem à sua frente
o filho
e suas obras
sua arte

ao lado
faixa vermelha

houve sangue
nessas veias
inflamadas
balança
verde-musgo
pesando os feitos
bem e mal
bem na sua frente

tua lápide
repousa
em paz

Tela de Hosmany Ramos - Teorema


Foto: Rita Elisa Seda.


uniforme branco
negro se sobressaindo
nas formas simétricas
de fundo vermelho
assustando
e não dá cor
biombo preto
o branco pede licença
para se esconder
da vergonha
do passado impresso
escuro feito livro
de terror
lido
aberto
cor branca penetra
o negro do quadro
se impõe

houve branco passado
a limpo
tanto vermelho
impuro
lilás no preto
agressivo
estampado
na delicadeza
e o revés

Telas de Hosmany Ramos - Hipotenusa


Foto: Rita Elisa Seda.



cubos lilases
calados
estratégia

qualquer coisa
solta no breu
da noite negra
da alma

em que você pensava
nessa hora?
controlando a luz
da tela
aquela

futuro
negro
o persegue
assustadoramente
aquarela
parece livros
que lê
histórias de um lilás
incompreensível

poderia ser
espiral sem fim
no entanto
são livros
não são livres

Tela de Hosmany Ramos - Maternidade quadrada


Foto: Rita Elisa Seda.


bandeiras de hosmany


paz
branco em pê
paz
vermelho
paz no vermelho
cobrindo a branca paz
em pê
entre azul e amarelo

mais belo

a mão firme
pinta
o vermelho
num pacto de sangue
e vida
com a arte
mais bela
deixa falar o amarelo
dê voz ao branco
ao azul
ao vermelho
à tinta à óleo
na tela
agora, exposta
se revela
pinceladas mescladas
madrugada qualquer
suficiente
pra dar cor à tela
e a vida
em brancas nuvens
amarelas
o negro se sobressai
a cor favorita
o agressivo o rude
destacam-se no amarelo
desejo de pintar
o mundo em cores vibrantes
atraentes tintas o chamam
à missão
re-missão

Tela de Hosmany Ramos - Planos e cores


Foto: Rita Elisa Seda.


por que tem que ser assim?
por que?
por que?

mesclar tudo
ver no que dá
alguma coisa
de ruim
não tem que ficar

o cinza ficou lindo
em você, tela
saber compor as cores
nos planos
que elabora
mirabola

conduta ideal
compor planos
nas cores
que ignora
amarelo é ouro
fica perfeito
na delicadeza
dos frisos cinzas

cinzas cinzas pretas
não sei aonde ia
tua mente
quando pintava
a solidão
pingo vermelho
quem viu?
apenas um pingo
na amplidão cinza

enquanto minguo
corta a harmonia
algo de escuro
em claras metáforas

mão segura
do artista
emoldurando
tela de roxo-tristeza

feliz com a criação
mais um dia
inaugura

Tela de Hosmany Ramos - sem título


Foto: Rita Elisa Seda.


tempo passa
a quem pinta
aos prantos

rosto
não demonstra
cores escondendo
tanta beleza
amarelo - elo
que falta
não desejo
agora não

vermelho - risco
de sangrar
a qualquer custo

negro - o rasgo
do véu a um passo
na eternidade

abismos
próximos
eu passo
cores coladas
metidas num só quadro
reproduzem
o que vai
e não volta nunca mais
na esperança
de pintar
o que pintar

Tela de Hosmany Ramos - O olhar que pensa


Foto: Rita Elisa Seda.



onde você conseguiu
brilho desse azul?

me empresta
me conceda a honra
desta contradança, senhor azul?

azulindo

tom de azul
encantador
tantas tonalidades
esse azul
cai tão bem
na tua tela

tanto cai bem
que fica
cabeça de cavalo
desponta
dá coices
com a rigidez
da própria figura

nave pousa
amedrontada
com a perfeição
do artista
imponente
por mim
escolheria entre tons leves
rosas azuis lilases
anis anis anis também

em teu desejo
cores fortes
agredindo
encantando
seduzindo
torturando mestres
escondendo chaves

Tela de Hosmany Ramos - Masculino e feminino


Foto: Rita Elisa Seda.


azul e rosa
rosa e blue
rose

não chegam
a um acordo
é masculino
é feminino
quando deveriam
ser um só
olhar
o feminino
mexe com ele
abrange um pouco mais
do seu eu

ele existe
impera
tira coelhos
e olho
da cartola
ampulheta
cartola
tempo implacável
ele e ela
tudo rosa à esquerda
tudo azul à direita

o nada
o branco à distância
olhar estranho
parece pensar
ou pensa que pensa
se faz razão
pra vê-la
de rosa

se faz rosa
pra vê-lo
tudo azul

Tela de Hosmany Ramos - Autorretrato


Foto: Rita Elisa Seda.


hr by hr


retrato de mim
de meus retalhos
ocultos
preso nas paredes
intransponíveis

no entanto
eu desejo

a mim
retrato

agá por agá

tantos pensares
a cabeça se expande
em cores palavras anseios

tantos esgares
a cabeça se divide
em mim
no outro

hosmany por hosmany

cacos na cabeça
cacos na mente
infeliz homem-solidão
esparadrapos brancos
não colam

o nariz sangra
de repente

hosmany por juracy

sopro
no pó
diamante
acariciante
voando
nas asas do relento

filho da mãe
filho do vento

sábado, 16 de maio de 2009

prêmio camões

tudo em mim
sobra

se digo algo
isso é bandeira

se construo barco
antes da patente
barcos na água corrente

se penso
descartes já pensou por mim

mereço prêmio
pelo conjunto de minha sobra

sexta-feira, 15 de maio de 2009

viveirista

produtora
negocio flores
pra atrair
beija-flores

vendo flores
que só vendo

céu é o limite

nascer de novo
é preciso
junco
narciso

voar em borboletas
pelas flores
larvas

beijar o mel
receber chave
do céu

seiva e cerne

italiano, modesto
sangue nas veias
carne viva
bela fera
gente toda vida
enternece

vícios

pegada na areia
restos

dragão
expelindo jogo

rastros
santas diabruras

teddy bear

bicho selvagem
tapete
de astúcia

jogando o jogo

cara
sua torcida é sua cara
seu passe
que você mesmo compra
e vende
a ferro e sangue
seu tapa e o revide
disso ninguém duvide

vem pra fama, pelé

entrou de sola
deita e rola
trocando sempre a pele

no gramado
toca a bola
com os pés
toca o sol
com as mãos

ed mundo animal

abaixo bicho
arteiro
viva esse animal
seu tiro
certeiro

seta
tiro de meta

refeita a fama
deita na grama

malha e tecido, coisa de louco

xadrez
cana
que prende
tudo azul
tudo bem

tua camisa
de força

coro de anjos chorões

algo no ar
choro

mas é música
aleluia alegria
vida sol
salgueiro, chorão

algo angélico no ar
choro

risonha

se rio oceano pleno
me transformo de repente
em gotinha boba-alegre
querendo gostar
só de quem gota da gente

mar de amor

pela poesia
a vida vale a pena

vale pelos filhos
pelas perdas
pelas vãs vitórias
vale pelo vale
vale pelo Vale um Beijo
recebido
no pedacinho de papel
com desenho de uma boca

vale pela lembrança
mesmo se não há mais lembrança
vale pela dor
agora é cicatriz
vale pelas palavras
que se espera ouvir
ou pensamos merecer
quem dera

à luz de castiçais

meus amigos
me sinto só
dor cruel de ser só

ninguém me ama
não tenho mais lágrimas
relógio não me vê
madrugadas frias

me sinto assim
cinto apertado
preparem a mesa
para mim

harmonia

meus filhos dormem
gosto de velar o sono deles
de me sentir mãe

soprar bons fluidos sobre eles
durmam, anjos
boi não pega neném
mamãe não deixa

durmam, anjos
venha, manada
em estado de poesia
sem espada
sem dor
sem sangue derramado
e confraternize conosco
nesta paz
temperamental
quero a poesia
sem intervalo
comercial

por amor

amiga da ursa
amiga da onça
jararaca
cascavel
cão bravo

gatinha
pata a pata
de corpo e alma
brigitte bardot
agora sim
muito mais bela

entrego minha pele
em meus apelos

quinta-feira, 14 de maio de 2009

maio, mês dos noivos

gil
terra
cio
céu sal pimenta
fogo foguinho
que céu
mar
floresta
haja festa
neste dia feliz
que te viu
gil
mar

sábado, 9 de maio de 2009

como se apaga
do coração
um homem?

imagem fixa
de algo
que veio
foi
e ficou

como se afaga
o coração
desse homem?

gôndolas

rima a vida
remando
pra lá
pra cá


rema, rima
traga risos
flores
aos barcos furados
da vida

sexta-feira, 8 de maio de 2009

tamareira
que nunca plantei
envia tâmaras
pra mim

recebendo tanta brandura
sem ter nada a oferecer
mando
lembranças
essa preguiça
no meu galho
me chamando de irmã
num instantinho
quarto de século, talvez
vai soltar minha mão

começar tudo outra vez
não é moleza

dilacere, fotografe

agora deu de lamber selos
ande, fotografe
rasgue a saia-envelope
serei objetiva
não sou o que sou
o que você vê
nem o que dispensa
sou o que aparento
eterno ser

fogo da paixão

leve sopro
carvão
mostra-se vivo

língua de fogo
lambendo a madeira
labaredas subindo
chuva de fagulhas

a brasa
com asas
antes de extinguir-se
nas cinzas
mostra o dom
do amor

tudo além disso

o sol é gay
despiu meu amor
pôs na cabeça dele
coroa de astro-rei

a lua é lésbica
tremenda bicha
me convida pra dormir
me espicha
estrela brincando
na tua mão?

demais esse lero
assim até eu
boba
te quero
seus cabelos
perfumam
a dama-da-noite

perfumam
minha boa noite
figo temporão
eu no gramado verde
sim não não não não
conheço caju
de carne saborosa
sei, sou gulosa
ai, tangerina
se os gomos se dividem
pobre menina
serpente mal
dita maçã ele já vai
tirando casca
li cravo e limão
meu abraço apertado
limando coração
estradeiro, diz
aonde vais amanhã
buscar avelã?
dentro da cesta
mil beijos de damascos
delícia - é sexta
boca madura
lábios aveludados
doce ventura
gotas e mais gotas
de mel naquela boca
rainha louca

segunda-feira, 4 de maio de 2009

pena, pra que te quero?

não vi barata
na careca do vovô

vi pássaro
na gaiola
assim que me viu
não bateu asas
e chorou

antoninho da rocha marmo

chegamos em comboio
lá estava padre zezinho
quis espalhar notícias
do presente do passado
acanhada
não fui até ele
não fiz nada

eu já estava pensando em deus
estava pensando no amor
em estado de
ângelo

alice deu à luz

ângelo nasceu
embrulhei coração
num presente dourado

o bebê abriu meus olhos
no seu olhar
compenetrado

:vovó, qual o babado?
o que esse povo tá aprontando?

enfermeira ensinou ao pai
primeiro banho do neném

na água
ângelo já foi arregaçando
as manguinhas

derramei breu branco

ainda por cima
escorreguei
bati a cabeça no chão

tentei pensar
numa prece rápida
em caso de qualquer coisa
não tinha
nada na cabeça

Allahu Akbar

príncipe à solta
minha tenda
no deserto

foto eternizada
num segundo

per turbante
olhar
por si
revela

luz vidamor

nuvens negras
passageiras
na imensidão
do pensamento vão
orar
Assim também andemos nós
em novidade de vida.
Romanos 6,4


você tem medo
do que aviva
já sabe
comigo
corre risco
de vida

domingo, 3 de maio de 2009

oh susana

linda flávia
doçura de flor
em flor de néctar
suave
pele nave
perfume de flor
flauta doce

sexta-feira, 1 de maio de 2009

sem me encarar

o que olha
seu olhar?

eu olho
suas retinas
dos olhos, as meninas
você, bem-olhado
mal-encarado
só eu
me entrego
peço água
só não jogo a toalha
na lona já estou
há tempos

mas felizes

quando meu castelo
desmoronou
fugi com o sapo
coabitamos
coaxamos
verdolengos
ferinos

doce elisa

vem, elisa
solta os cabelos
descalça os pés
esse chão pisa
devagar

vem, elisa
sorria, vida te chama
pisa na grama
sinta a brisa
de verão

vem, elisa
linda criança
charmosa moça
no meu colo
toda prosa
cheia de esperança

vem, elisa
boneca risonha
sonha, sonha
vida cor-de-rosa
vem, menina manhosa
dorme nesse mar
de amor

doce elisa
manhã primaveril
muitas borboletas

menino de ouro

cresca, áureo
em berço de ouro
carinho
alegria
beleza
cuidados

cresca, áureo
na Luz
nas bênçãos
que te cobre
o bom Pai

cresça, áureo
na inteireza
de sua alma
se mostrando
generosa
desde criança

áureo
tudo o que
você tocar
vai virar

ela não desiste

para, brisa
de me pedir
poema

poema tem que nascer
devagarinho
não às pressas
mas com carinho

para, brisa
de me pedir
poema

poema não é raio cortante
que nasce
num instante
logo desaparece

ele vem de mansinho
suave sopro no rosto
pássaro voltando ao ninho
você nunca esquece
o poema permanece
num beijo, brisa

para, brisa

cara clara

doçura
clarabela
alva manhã
clara voz
de avelã

joão bobo

angústia da espera
ex aspera

vem não vem
bem-me-quer, vem-me-quer
ser não ter
sim talvez porque quando não

joão-ninguém
recolhendo meu coração
da sarjeta